03/01/2010

O levante

Já passavam das duas da tarde. Na varanda ele lia Dostoiévski. Não havia vento, mal se ouviam os pássaros nas árvores ao longe que formavam um imenso muro que escondia boa parte do horizonte. Surge um som distinto por entre árvores, o som se aproxima rapidamente. Um automóvel vem chegando e levantando uma grande cortina de poeira marrom pela estrada. É um Chevrolet já desgastado pelo tempo, a cor azul lutando contra a negra ferrugem. Um homem alto, com calças de escriturário botas de camponês sai do veículo e, atravessando a neblina marrom, se aproxima ofegante. “– Henrique, eles invadiram a cidade! A essa altura já devem ter ocupado a prefeitura e pego o nosso prefeito cagão! Assim que soube corri para o carro e estou alertando todos os nossos colegas.

Henrique estava perplexo. Sabia que a cidade, bem como todas as outras ao redor, poderiam ser invadidas a qualquer momento. Ele, em silêncio, se lembrava que havia um acordo tramitando, não esperavam que houvesse uma atitude descabida por parte deles nessa situação. Mas lá estava Arthur, com suas belas calças e braços suavemente abertos e a frente de seu corpo sinalizando surpresa, ele continuou: “- Alguns estão deixando a cidade e vindo para cá, nos campos, onde eles não se importam de procurar. Mas grande parte quer lutar, estão dispostos a sacrificar suas vidas!

- E você, o que vai fazer? –disse Henrique ainda com o livro aberto na página onde fora interrompido.

- É quase certo que quem ficar vai cair nas mãos deles, ou mesmo morrer.

- Mais do que certo! Eles são soldados treinados e não sabemos em quanto eles são, não é?

- Sim, eu sei. Além disso, nós só temos espingardas. Os rifles são muito mais perigosos. Mas temos a vantagem de conhecer o terreno.

- Então você está pensando em ficar lá!

- Ficarei.

- Você tem pai e mãe, como vai deixá-los, hã? E quanto a Roberta, vai deixá-la chorando a sua morte sem mesmo dar a chance dela ver e beijar a testa do seu corpo morto. Você sabe como é não ter o corpo da pessoa amada para se despedir, sabe?

- Cale a boca! Seu merda! Você não vê? Eles já nos roubaram o nosso jeito de viver. Roubaram até o nosso jeito de andar, nós não andamos como homens na cidade e sim como vacas! Ninguém namora nas praças, as pessoas não se falam. Você entende isso também, eu sei!

- Mas ainda vivemos...

- Vivemos numa caixa que a cada dia tem suas dimensões diminuídas, que bela vida!

-Quantos temos?

- Uns duzentos, a maioria jovem. Precisamos de mais, não sabemos em quantos eles são.

Colocou o marcador na página em que parou. Deixou o livro sobre o banco em que estava. Entrou no carro silenciosamente. O som do motor abafou novamente o canto dos pássaros.

26/12/2009

Na varanda

Oswaldo a deixou na sala e foi procurar sua mãe para lhe apresentar. Ela se sentou timidamente no sofá e notou que o tapete principal combinava perfeitamente com as cortinas. As fotos de Oswaldo em sua infância que estavam à mostra na estante puxaram sua atenção. Nas fotos, ele aparecia com seus pais e amigos, mas havia três onde apenas ele e sua mãe apareciam abraçados. Lembrou-se do que Oswaldo a tinha dito sobre a mãe dele, naquele memento ela pode entender suas palavras que ele usara para descrever essa relação familiar, eles eram muito apegados, muito próximos.

Oswaldo e sua mãe entraram na sala. Helena estava encurvada e apertando os olhos para ver os detalhes das fotografias. Oswaldo apresentou Helena a sua mãe, encheram-se de cumprimentos e cordialidades. Ambas eram mulheres muito educadas e faziam questão de mostrar isso. Ana elogiou os sapatos de Helena, essa respondeu com um sorriso. Havia sorrisos em todas as bocas.

Oswaldo perdeu seu pai ainda na infância, um acidente de trânsito. Ana achou melhor poupar o filho do transtorno de outro homem em casa e decidiu por não se casar novamente. Oswaldo realmente não desejava que ela se casasse com outro, porém nunca a teria exposto esse seu desejo já que isso a magoaria muito.

O homem da casa fixou seus olhos durante um minuto ao longe, como quem procura lembrar algo. Tinha se esquecido de comprar o vinho para o jantar. Oswaldo pegou as chaves do carro e foi ao mercado. Assim pode dar a oportunidade das duas se conhecerem melhor.

Elas se sentaram na varanda, era uma noite tipicamente quente. Helena elogiou o filho de Ana com mil adjetivos e sorrisos tímidos enquanto a outra balançava a cabeça muito lentamente em sinal de compreensão. Ana concordou, Oswaldo era de fato um bom homem, não só para ela, mas todos que o conheciam não vacilavam em elogiar-lhe o caráter distinto e humor refinado. Mas de repente Ana mudou o tom de voz para um mais sério e um pouco assustador.

Ela disse que seu filho era um exemplo a ser seguido, homem reto, íntegro etc, mas que Helena deveria ser cautelosa. O que significaria cautelosa? Por que Ana falava essas coisas?

Ana explicou-lhe que Oswaldo, quando posto sob grande pressão, tem certos excessos. Contou-lhe um caso ocorrido quatro anos atrás, onde ele acabou na delegacia por certo fato e outro, ocorrido há cinco anos, onde ele passou sete dias no hospital sob esta e aquela condição. Helena ouvia a tudo com uma face dúbia, difícil de interpretar. Por que essa mulher fala essas coisas de seu filho? Que pretende? Ela contava essas histórias com muita delicadeza, de uma forma que poderia até ser chamada de simpática.

Oswaldo chega, a garrafa de vinho o acompanha na sua mão esquerda. A mãe esta na sala, no mesmo lugar onde a pouco estava Helena e, como ela, olhava as fotos de Oswaldo. Ele perguntou onde estava sua namorada.

19/12/2009

Esclarecimento aos leitores amigos

Como vocês já perceberam, o ano não foi muito produtivo. Sou muito ocupado, mas nas férias pretendo regressar a essa sociedade secreta de escritores anônimos brasileiros, afinal, como disse Drummond: "Você não morre, José/ Você é duro".

08/04/2009

No butiquim

- Eia, tá cego homi? Quase passa por cima e não comprimenta os amigos.
- Hã hã... mas se eu tivesse visto que era o cê eu nem tinha entrado, nego safado.
- (Risos barulhentos e em conjunto)
- E aquele seu timinho! Que vexame! Eu nem.
- Hi. Começo. Agora aguenta.
- Eu nem acredito que perdi tempo assistindo àquela bosta (risos)! São tudo um bando de moça correndo atrás da bola.
- Cê lava essa pra fala do meu time. Ó, são três, três títulos brasileiros. Conquistados na época que tinha que ter raça pra ganha!
- Bestera.
- Bestera foi aquele comício daquele joão-bosta do Miltinho, e você tava lá puxando o saco dele, cês são um bando de burro! Faz mais de 3 anos que ele tá lá na prefeitura e não faz nada além de ficar andando de carro por aí.
- E adianta mudar pra quele muleque que não têm um pêlo na cara? Hein?
Uma morna e oculta noite brasileira.


03/03/2009

Fábula aos oito anos

Era uma vez uma linda princesa. Ela vivia sozinha num grande castelo. Cansada das paredes velhas e caídas do castela ela resolveu que gostaria de um novo castelo. Então ela saiu pelo portão principal e começou a pedir por um novo castelo.
Primeiro ela pediu para o Sol, mas o Sol disse não. Depois ela pediu para a Terra, mas ela disse não. O dia escureceu e a Lua apareceu, a linda princesa pediu para que a Lua realizasse seu desejo. Mas antes de a Lua responder o Mar que a tudo ouvia disse -"Não se preocupe linda princesa. Eu lhe darei um castelo tão lindo como seu branco vestido depois dessa noite. Então a princesa foi dormir pensando no seu novo castelo.
Na manhã seguinte ela se levantou e olhou pela janela e viu uma grande montanha de sal.

27/11/2008

Beleza íntima

Beleza íntima
Toc-toc-toc na porta do quarto de Rita.- Você já está pronta minha filha?- Já vai! Espera um pouco.
Mariana desceu as escadas e sentou a mesa com seu marido que lia o jornal ao lado de uma xícara vazia.- Ela disse que já está descendo...
Mal terminada a frase, o som dos passos na escada denunciam Rita, os que a esperavam vão até a porta da frente esperá-la. De lá ficam surpresos com a filha.- Nossa, filha! Quanta maquiagem, quase não te reconheço, disse o pai.- Para com isso Otávio! Você está linda filha, agora vamos logo antes que nos atrasemos.
Era assim todos os sábados, às vezes iam ao teatro, outras ao cinema, enfim. Os pequenos quatorze anos de Rita não escondiam sua beleza física. Era alta e magra, cabelos negros quase longos e olhos profundos auxiliados pela maquiagem. Sua beleza infantil somado a sua sensualidade adulta atraíam os mais audaciosos olhares nas ruas.
Desde que Mariana lhe ensinara a usar seus batons, sombras e outras coisas, a pequena foi tomando um gosto ímpar pela atividade. Caprichos da idade, afinal já era quase moça feita como diziam os tios que freqüentemente os visitavam.Ha! Se ela soubesse na sua terna infância que não importa o quanto se pinte o ovo um dia ele, fatalmente, se quebrará. Grita e grita a beleza que se vai para conseguir um não se sabe que de um mistério, assim, turvo e doido. É fato consumado. Veio o pedido: “posso usar um pouco para ir à escola, todas usam”, como negar o que não se nega. O espelho do quarto não cansava de refletir a mesma imagem todos os dias de manhã. Os olhos frios ganhando cor, o cabelo forma, o batom audaz que beija os lábios virgens. No jogo de Narciso não se encontra culpados nem vítimas, só atores atordoados de ópio. O princípio é sempre o isolamento, onipotente e absoluto. O telefone tocou: “alô, é a mãe de Rita... bem, sua filha, não de hoje... fora da aula... rapazes, tu sabes?” Atordoada perdeu-se a razão.
Castigo é não viver, o pássaro que não voa. “De casa você não sai”. Choro e mais choro enchiam a casa, Otávio nem acreditava, estaria grávida?Totoc-toc na porta.- Já está dormindo, filha?- Não...
Entra, e surpreende-se ao ver Rita em frente ao espelho.- O quê você está fazendo! Já disse que daqui você não sai. Pare com isso!- Eu não vou sair, você não entende? Tenho que estar bonita, estou me preparando para quando ele chegar, o sonho.- Você está louca! Vá limpar essa cara nojenta antes que eu arrebente ela, menina estúpida!
Foi demorou mais de meia hora, lavou-se com álcool e lágrimas. Seu rosto se desfazendo na frente do espelho não pede suportar. Depois do banheiro passou na lavanderia e bebeu um líquido rosa sem saber que utilidade tinha, foi como engolir uma rosa cheirosa e com espinhos. Trancou-se no quarto sem falar com ninguém, e de lá nunca mais saiu bela. Uma rosa com espinhos.

22/10/2008

O café da manhã


- José, você viu que fim teve a Anita, a filha do Raimundo, seu amigo? Não! Há... nem te conto! Sabe aquela amiga dela, a loirinha?
- A Lúcia?
-Não, a outra, que vivia usando uma calça apertadíssima rosa.
- Hãm... acho que se chamava Elisa
- Sim, essa mesma. Pois é, você se lembra como as duas eram amigas e viviam juntas pelas festas da cidade? E você se lembra como as duas pararam de sair juntas e rolo por aí uma fofoca que elas tinham brigado por um rapaz. È, acho que já faz umas quatro semanas.
- Sim, eu me recordo de algo assim. Mas o quê que tem tudo isso?
- Você nem imagina José! E olha que escândalo, não se fala em outra coisa na vizinhança, mas como você vive trabalhando e dormindo não soube de nada ainda.
- Mas isso não é por falta de esforço seu- sorriu de leve e mostrou a ponta de seus dentes amarelados.
- Pois, escuta. Foi ontem à noite. A mãe de Anita, a Roberta, e como ela está mal com tudo isso, foi procurar a Anita na rua. Ela tinha ido buscar pão para o café de hoje, parece que a Roberta tinha esquecido de avisar que precisava de café também. Mas sabe o que encontrou...?
- Não, respondeu dando um gole sem vontade no seu café.
- Encontrou-a aos beijos e amassos... com..., e nesse momento abaixou a voz de tal forma que ela própria quase não ouviu, com a E-LI-SA.
- Você está louca mulher! Impossível, que história é essa?
- É o que todo mundo ta dizendo, a própria vizinha da tipinha disse que viu tudo, TU-DO!
- Eu não acredito. A filha do Raimundo, sapatão!
- Pois, pode acreditar. É a pura verdade! E o pior foi depois. A Roberta, vendo tudo aquilo, voltou aos prantos para a casa, contou para o marido. Quando a Anita chegou em casa só se ouviu os gritos dela e do Raimundo. Foi xingamento que não acabava mais. Coitada, apanhou tanto, tanto, mais tanto que foi parar no Hospital. A vizinha chamou a polícia, fizeram o diabo. Agora ele ainda deve estar lá na delegacia explicando tudo.
- Pobre Raimundo! Um homem bom, o conheço já faz muitos anos. Não merecia esse desgosto.
- Pobre do Raimundo! E a filha, a Anita, não tem pena? Perguntou balançando o corpo todo com sua risada contínua.
- Nem um pingo! E tem mais, se fosse a minha filha... engoliu o resto de café da xícara, se fosse a minha filha eu matava. Dava-lhe um tiro no peito e depois acabava comigo mesmo, é impossível viver com esse... essa desgraça.
- Credo, José! Você é muito bruto, e velho também, hoje isso é quase normal.
- Pobre do Raimundo, não merecia.