24 de jul. de 2008

Pergunta inconveniente


Eu vivo rindo de nós, os humanos, com todas as nossas crenças e costumes que foram adquiridas em não sei quantas gerações passadas e que, por teimosia e medo de mudar, ainda mantemos.
Peguei certo dia um ônibus para ir à praça passear um pouco e comprar um jornal, não era horário de pico, mas não tinha onde me sentar, então me acomodei perto de uma senhora que estava sentada ao lado de uma criança que calculo, tinha uns seis anos, provavelmente sua neta. A menininha não parava quieta no banco e a vovó a advertia sem parar, até que por um momento ela sentou, antes não o fizesse, olhou com aqueles grandes olhos infantis a senhora e soltou uma inconveniente pergunta.
- Só tem uma coisa que eu não entendo. Como é que pode existir Deus.
- Hã?
- É, porque, pensa bem, se Deus criou tudo, quem criou ele? Eu perguntei para a minha mãe ontem quando agente voltava da igreja e ela disse assim pra mim, olha aqui ó, disse assim pra mim: “isso é pergunta que se faça Ana, Ele sabe como fez tudo”. Mas acontece que eu também quero saber como Ele fez, por que que só Ele pode saber e eu não, hein?
- Hum.
- Aí eu perguntei, presta atenção em mim, aí eu perguntei se ela sabia e ela respondeu que sabia, mas não ia me contar porque eu sou muito novinha. Mas, não é esquisito mesmo, todo mundo diz que Ele criou “tuuuuudo”, se é assim, ele se criou, mas como é que se cria a você mesmo?
- Olha que a gente ta quase chegando no nosso ponto...
- Ai! Não dá pra entender. Você é bem mais velha que a minha mãe, não é. Então me conta, como é que se explica isso?
- È muito complicado mesmo.
- Não tem problema se eu não entender, eu só quero que me expliquem. Explica pra mim, eu prometo que não conto pra ninguém que você me contou.
- Hoje está muito quente, você quer tomar um sorvete na lanchonete antes de chegar na casa de sua mãe? Eu tô com uma vontade...
- È! Eu vô querer de morango com chocolate, você compra um pra mim? Legal, mais eu quero com bastante cobertura e...
Durante toda a conversa eu fiquei pensando em Santo Agostinho, Nietz e em todos nós, humanos, que insistimos em nos torturar com essas perguntas. Depois de refletir por um minuto me convenci de que a velha senhora tinha razão, a melhor resposta é um sorvete.

10 de jul. de 2008

Best Chico



- Bom dia, querida, por favor, um cafezinho. Não, sem açúcar, isso... obrigado!
- São um e sessenta, seu Zé.
- Aqui está, e me da mais um jornal. Ok, obrigado. Até mais.
Desceu a rua com a calma que seus 64 exigem, foi devagar com o jornal embaixo do braço, fazia frio e, mesmo sendo oito da manhã, ainda havia neblina. Chegou numa casa no fim da rua, passou pelo jardim de poucas folhas, algumas rosas, e parou em frente a uma porta arranhada e com tinta descascada, tirou o molho de chaves barulhento e entrou.
- Ai, ai! Essas dores nas costas... saia da minha cadeira bichano! Pronto, hummm. Vamos ver então. Inflação atinge tanto, a moda das americanas chegas as praias, acidente mata dezesseis e ... Nossa! É o Chico! Não, será mesmo? Pior que é! Olha só... “ O ‘Chico do bandolim’ faz sucesso no exterior”.
Eu não creio. Quem te viu, quem te vê, Chico. Não faz nem bem um ano que você foi embora daqui, parece que foi ontem que a gente se encontrava no bar para tomar uma pinguinha e jogar sinuca. E às vezes o dono do bar tinha que pedir para você parar de tocar aquele bandolim, pois estava incomodando os outros clientes, e perturbava mesmo, não parava um minuto! Eu até que gostava, mas você, Chico, venerava aquele pedaço de pau cheio de cordas.
“O fenômeno brasileiro vai, nesta sexta feira, para os Estados Unidos se apresentar em uma turnê...” Poxa! Mais o coitado nem fala inglês, se atrapalhava já no português sem nem precisar beber. Dizia “vamo, Zé, vamo que o negócio hoje vai pegar no fogo” e como pegava! Era um samba atrás do outro. “Quando perguntamos do que ele mais vai sentir saudades do Brasil, disse: Há! Sem dúvida é das praias. O azul do céu junto com o do mar além é claro, das mulheres do Brasil”. “- Sabe, eu acho que não existe mulher mais linda e agradável que a brasileira, mas não sei por que diabos a maioria fica querendo ser como as branquelas européias, eu gosto mesmo é de cor! De volume e paixão (risos).
- Esse Chico! Não presta nem nunca vai prestar!