22 de out. de 2008

O café da manhã


- José, você viu que fim teve a Anita, a filha do Raimundo, seu amigo? Não! Há... nem te conto! Sabe aquela amiga dela, a loirinha?
- A Lúcia?
-Não, a outra, que vivia usando uma calça apertadíssima rosa.
- Hãm... acho que se chamava Elisa
- Sim, essa mesma. Pois é, você se lembra como as duas eram amigas e viviam juntas pelas festas da cidade? E você se lembra como as duas pararam de sair juntas e rolo por aí uma fofoca que elas tinham brigado por um rapaz. È, acho que já faz umas quatro semanas.
- Sim, eu me recordo de algo assim. Mas o quê que tem tudo isso?
- Você nem imagina José! E olha que escândalo, não se fala em outra coisa na vizinhança, mas como você vive trabalhando e dormindo não soube de nada ainda.
- Mas isso não é por falta de esforço seu- sorriu de leve e mostrou a ponta de seus dentes amarelados.
- Pois, escuta. Foi ontem à noite. A mãe de Anita, a Roberta, e como ela está mal com tudo isso, foi procurar a Anita na rua. Ela tinha ido buscar pão para o café de hoje, parece que a Roberta tinha esquecido de avisar que precisava de café também. Mas sabe o que encontrou...?
- Não, respondeu dando um gole sem vontade no seu café.
- Encontrou-a aos beijos e amassos... com..., e nesse momento abaixou a voz de tal forma que ela própria quase não ouviu, com a E-LI-SA.
- Você está louca mulher! Impossível, que história é essa?
- É o que todo mundo ta dizendo, a própria vizinha da tipinha disse que viu tudo, TU-DO!
- Eu não acredito. A filha do Raimundo, sapatão!
- Pois, pode acreditar. É a pura verdade! E o pior foi depois. A Roberta, vendo tudo aquilo, voltou aos prantos para a casa, contou para o marido. Quando a Anita chegou em casa só se ouviu os gritos dela e do Raimundo. Foi xingamento que não acabava mais. Coitada, apanhou tanto, tanto, mais tanto que foi parar no Hospital. A vizinha chamou a polícia, fizeram o diabo. Agora ele ainda deve estar lá na delegacia explicando tudo.
- Pobre Raimundo! Um homem bom, o conheço já faz muitos anos. Não merecia esse desgosto.
- Pobre do Raimundo! E a filha, a Anita, não tem pena? Perguntou balançando o corpo todo com sua risada contínua.
- Nem um pingo! E tem mais, se fosse a minha filha... engoliu o resto de café da xícara, se fosse a minha filha eu matava. Dava-lhe um tiro no peito e depois acabava comigo mesmo, é impossível viver com esse... essa desgraça.
- Credo, José! Você é muito bruto, e velho também, hoje isso é quase normal.
- Pobre do Raimundo, não merecia.

7 de out. de 2008

Estrelas da cidade



Na noite anterior choveu, choveu muito. José estava em sua casa, solitária e bagunçada casa, encontrava conforto entre meus papéis.
- As estrelas são muito ofuscadas pelas luzes da cidade, mas hoje não posso vê-las, só vejo a chuva açoitar a terra lá fora, o vento assoviando uma melodia mórbida e alucinante. O ar fica tão pesado nesses dias, respiro como se houvesse concreto nos meus pulmões. Nem a lua, onde ela está? Vida maldita, mil vezes maldita! Sou um burro que não sabe viver fora desses papéis amarelados, dessa tinta envenenada! Esse silêncio parece rasgar a minha pele, coça e coça. Mas esse barulho de tempestade... batendo na minha janela, rangem as portas e o alarme dos carros da vizinhança dispara... estou enlouquecendo. Rápido, preciso dormir, fugir e encontrar um novo dia. Mas o sono é caprichoso demais, precisa estar tudo perfeito para ele aparecer.
O tempo acabou por vencer a teimosia do sono que não aparecia. A chuva ainda caia forte lá fora, explodia no telhado e, apesar do barulho, trazia uma estranha calma para todo o ambiente interno da casa. Tudo imóvel, na penumbra, os móveis pareciam flutuar.
- Acordei como um ébrio depois de sua noite de alegria, um trapo. Ora quem diria, no caminho para o trabalho, passando entre os muros pichados e vestidos com folhas de todo comércio, entre os andarilhos que enchem a paisagem, vi com surpresa que haviam repintado a desbotada faixa de pedestres da rua pela qual habitualmente passava. Vendo as calçada de peti pavêt ao redor, notei que entre as pedras sujas havia uma fina camada do que parecia purpurina, talvez de carnaval. Brilhavam muito, muito no meio das pedras negras e fedidas. Então comecei a rir, e rir mais, rir sem parar.