22 de ago. de 2008

Dias

Um homem deve ter cuidado. Deve ter muito cuidado. Quando ele acorda e sente o quarto nublado, ele deve ter cuidado. Quando o café desce pela garganta suavemente, deve-se desconfiar. Quando as paredes parecem gemer em silêncio e mudam de cor, um homem deve ficar atento. Toda a mobília guarda coisas imemoráveis e delas brotam fantasmas da cor do vento, que agem como o vento, levanta tudo a sua volta e enchem nossos olhos de areia. Os velhos, que são fracos, fecham os olhos. Os jovens fingem não sentir, mas sentem. Por isso, todo homem deve ter cuidado, pois nunca se sabe ao certo quando um ninho é feito em cima de nossas cabeças.
Toda cidade é cinza e, às vezes, o céu fica cinza, não se deve deixar levar por essas bobagens, é perigoso. Quantos já não se foram assim? João, Roberto, Aninha. Quantos sem rosto, sem vontade, sem voz. Eles também são fantasmas, e estão na mobília, dormindo. Estão nos óculos dos tristes e nunca, nunca vão embora. Viver é muito perigoso, viver é muito perigoso.
Sim, a morte se aproxima, mas quê é a morte senão o maior ato em vida A morte é a nossa carta de alforria. Sim, a saudade sempre vem, mas os tempos passados não. Não nos resta mais nada, não tenho nada, por isso é preciso tomar muito cuidado, ficar muito atento e não se deixar levar por esses dias de embriaguez.