27 de nov. de 2008

Beleza íntima

Beleza íntima
Toc-toc-toc na porta do quarto de Rita.- Você já está pronta minha filha?- Já vai! Espera um pouco.
Mariana desceu as escadas e sentou a mesa com seu marido que lia o jornal ao lado de uma xícara vazia.- Ela disse que já está descendo...
Mal terminada a frase, o som dos passos na escada denunciam Rita, os que a esperavam vão até a porta da frente esperá-la. De lá ficam surpresos com a filha.- Nossa, filha! Quanta maquiagem, quase não te reconheço, disse o pai.- Para com isso Otávio! Você está linda filha, agora vamos logo antes que nos atrasemos.
Era assim todos os sábados, às vezes iam ao teatro, outras ao cinema, enfim. Os pequenos quatorze anos de Rita não escondiam sua beleza física. Era alta e magra, cabelos negros quase longos e olhos profundos auxiliados pela maquiagem. Sua beleza infantil somado a sua sensualidade adulta atraíam os mais audaciosos olhares nas ruas.
Desde que Mariana lhe ensinara a usar seus batons, sombras e outras coisas, a pequena foi tomando um gosto ímpar pela atividade. Caprichos da idade, afinal já era quase moça feita como diziam os tios que freqüentemente os visitavam.Ha! Se ela soubesse na sua terna infância que não importa o quanto se pinte o ovo um dia ele, fatalmente, se quebrará. Grita e grita a beleza que se vai para conseguir um não se sabe que de um mistério, assim, turvo e doido. É fato consumado. Veio o pedido: “posso usar um pouco para ir à escola, todas usam”, como negar o que não se nega. O espelho do quarto não cansava de refletir a mesma imagem todos os dias de manhã. Os olhos frios ganhando cor, o cabelo forma, o batom audaz que beija os lábios virgens. No jogo de Narciso não se encontra culpados nem vítimas, só atores atordoados de ópio. O princípio é sempre o isolamento, onipotente e absoluto. O telefone tocou: “alô, é a mãe de Rita... bem, sua filha, não de hoje... fora da aula... rapazes, tu sabes?” Atordoada perdeu-se a razão.
Castigo é não viver, o pássaro que não voa. “De casa você não sai”. Choro e mais choro enchiam a casa, Otávio nem acreditava, estaria grávida?Totoc-toc na porta.- Já está dormindo, filha?- Não...
Entra, e surpreende-se ao ver Rita em frente ao espelho.- O quê você está fazendo! Já disse que daqui você não sai. Pare com isso!- Eu não vou sair, você não entende? Tenho que estar bonita, estou me preparando para quando ele chegar, o sonho.- Você está louca! Vá limpar essa cara nojenta antes que eu arrebente ela, menina estúpida!
Foi demorou mais de meia hora, lavou-se com álcool e lágrimas. Seu rosto se desfazendo na frente do espelho não pede suportar. Depois do banheiro passou na lavanderia e bebeu um líquido rosa sem saber que utilidade tinha, foi como engolir uma rosa cheirosa e com espinhos. Trancou-se no quarto sem falar com ninguém, e de lá nunca mais saiu bela. Uma rosa com espinhos.

22 de out. de 2008

O café da manhã


- José, você viu que fim teve a Anita, a filha do Raimundo, seu amigo? Não! Há... nem te conto! Sabe aquela amiga dela, a loirinha?
- A Lúcia?
-Não, a outra, que vivia usando uma calça apertadíssima rosa.
- Hãm... acho que se chamava Elisa
- Sim, essa mesma. Pois é, você se lembra como as duas eram amigas e viviam juntas pelas festas da cidade? E você se lembra como as duas pararam de sair juntas e rolo por aí uma fofoca que elas tinham brigado por um rapaz. È, acho que já faz umas quatro semanas.
- Sim, eu me recordo de algo assim. Mas o quê que tem tudo isso?
- Você nem imagina José! E olha que escândalo, não se fala em outra coisa na vizinhança, mas como você vive trabalhando e dormindo não soube de nada ainda.
- Mas isso não é por falta de esforço seu- sorriu de leve e mostrou a ponta de seus dentes amarelados.
- Pois, escuta. Foi ontem à noite. A mãe de Anita, a Roberta, e como ela está mal com tudo isso, foi procurar a Anita na rua. Ela tinha ido buscar pão para o café de hoje, parece que a Roberta tinha esquecido de avisar que precisava de café também. Mas sabe o que encontrou...?
- Não, respondeu dando um gole sem vontade no seu café.
- Encontrou-a aos beijos e amassos... com..., e nesse momento abaixou a voz de tal forma que ela própria quase não ouviu, com a E-LI-SA.
- Você está louca mulher! Impossível, que história é essa?
- É o que todo mundo ta dizendo, a própria vizinha da tipinha disse que viu tudo, TU-DO!
- Eu não acredito. A filha do Raimundo, sapatão!
- Pois, pode acreditar. É a pura verdade! E o pior foi depois. A Roberta, vendo tudo aquilo, voltou aos prantos para a casa, contou para o marido. Quando a Anita chegou em casa só se ouviu os gritos dela e do Raimundo. Foi xingamento que não acabava mais. Coitada, apanhou tanto, tanto, mais tanto que foi parar no Hospital. A vizinha chamou a polícia, fizeram o diabo. Agora ele ainda deve estar lá na delegacia explicando tudo.
- Pobre Raimundo! Um homem bom, o conheço já faz muitos anos. Não merecia esse desgosto.
- Pobre do Raimundo! E a filha, a Anita, não tem pena? Perguntou balançando o corpo todo com sua risada contínua.
- Nem um pingo! E tem mais, se fosse a minha filha... engoliu o resto de café da xícara, se fosse a minha filha eu matava. Dava-lhe um tiro no peito e depois acabava comigo mesmo, é impossível viver com esse... essa desgraça.
- Credo, José! Você é muito bruto, e velho também, hoje isso é quase normal.
- Pobre do Raimundo, não merecia.

7 de out. de 2008

Estrelas da cidade



Na noite anterior choveu, choveu muito. José estava em sua casa, solitária e bagunçada casa, encontrava conforto entre meus papéis.
- As estrelas são muito ofuscadas pelas luzes da cidade, mas hoje não posso vê-las, só vejo a chuva açoitar a terra lá fora, o vento assoviando uma melodia mórbida e alucinante. O ar fica tão pesado nesses dias, respiro como se houvesse concreto nos meus pulmões. Nem a lua, onde ela está? Vida maldita, mil vezes maldita! Sou um burro que não sabe viver fora desses papéis amarelados, dessa tinta envenenada! Esse silêncio parece rasgar a minha pele, coça e coça. Mas esse barulho de tempestade... batendo na minha janela, rangem as portas e o alarme dos carros da vizinhança dispara... estou enlouquecendo. Rápido, preciso dormir, fugir e encontrar um novo dia. Mas o sono é caprichoso demais, precisa estar tudo perfeito para ele aparecer.
O tempo acabou por vencer a teimosia do sono que não aparecia. A chuva ainda caia forte lá fora, explodia no telhado e, apesar do barulho, trazia uma estranha calma para todo o ambiente interno da casa. Tudo imóvel, na penumbra, os móveis pareciam flutuar.
- Acordei como um ébrio depois de sua noite de alegria, um trapo. Ora quem diria, no caminho para o trabalho, passando entre os muros pichados e vestidos com folhas de todo comércio, entre os andarilhos que enchem a paisagem, vi com surpresa que haviam repintado a desbotada faixa de pedestres da rua pela qual habitualmente passava. Vendo as calçada de peti pavêt ao redor, notei que entre as pedras sujas havia uma fina camada do que parecia purpurina, talvez de carnaval. Brilhavam muito, muito no meio das pedras negras e fedidas. Então comecei a rir, e rir mais, rir sem parar.

24 de set. de 2008

O matador de pombas I

Já passa de duas horas da manhã na Praça Tiradentes. Os anjos do topo da Igreja olham fixos e com curiosidade para Antônio.
- Gruhl, gruhl, aqui, vem aqui, pro saco, outra, quem mais? Gruhl, gruhl.
Oito horas da manhã, Antônio vai à Praça novamente, vestido com um avental branco, botas, e carregando no ombro uma caixa de isopor com seus sanduíches.
Como ele teve essa idéia nem mesmo ele sabe, além disso, era preciso ter muito sangue frio para implementá-la. Brincava com sigo mesmo, dizendo estar fazendo um serviço para a cidade livrando-a desses animais que a infestam e a sujam. Dizia a placa na frente da caixa “sanduíches de frango”, nada mais.
- Por favor... quanto é? Perguntou uma senhora já de meia idade.
- Um e cinqüenta, senhora. Só um e cinqüenta.
- Eu vou querer um.
Pagou e sentou-se num banco próximo. A senhora dava uma mordida e oferecia outra aos pombos que estavam a sua volta, uma pra ela, uma pra eles. Ela não sabia comia um deles e que incitava os pombos ao canibalismo. “Talvez essa fosse a solução” pensou Antônio. Se os pombos começassem a se devorar a cidade talvez ficasse mais agradável. O leve sorriso do matador denunciava a sua felicidade em ver a mesma senhora alimentando aqueles animais sujos ao mesmo tempo em que mastigava uma batida de outros tantos. “Quem sabe ela própria tenha os alimentado um dia”.
No começo ele só pegava os pombos da própria Praça Tiradentes, mas foi evoluindo ao ponto de conhecer todas as praças da cidade de Curitiba, essa cidade fria e amarga, cidade dura de viver.
Às uma acordava, vestia-se, jogava o saco na caminhonete e ia para alguma praça. Duas e meia da manhã estava chamando os bombos, picadas e cortes na mão de Antônio. Quatro, a produção começava.
Primeiro passo, coloca-se uma grande panela cheia de água no fogão, enquanto ela ferve Antônio traz o saco para a cozinha, algumas já estão mortas, as sortudas. Mas Antônio não usa as mortas, gosta de vê-las morrendo, morrendo na boca das pessoas. Segundo passo, arranja-se um espaço na pia e uma faca bem afiada, sente-se com o saco de pombos do lado. Tem que ser rápido, puxa-se um de dentro do saco, apói-o na pia e corte a cabeça, jogue a cabeça no lixo, o resto numa bandeja. Pise na boca do saco depois que tirar uma, pra assegurar que nenhuma fuja.
A bandeja, normalmente, não acumula muito sangue, mas com isso nos preocuparemos mais tarde. Terceiro passo, as vísceras têm de ser arrancadas. Coisa simples de se fazer, a faca deve escorregar da altura do pescoço até as garras do monstrinho, faça isso em cima de uma bandeja com água, pois a sujeira é muita. Na mesma água das vísceras dê uma pequena lavada no bichinho e coloque-o num outro recipiente. Nesse ponto a água já deve ter começado a ferver, coloque-os todos nela por uns quinze minutos, a criatura tem muito voluma, mas pouca carne, então não se importe de ter que apertá-los dentro da panela.
O cheiro é forte e repugnante. Estamos chegando na parte interessante, passado o tempo recomendado, tire-as da panela e arranque suas penas com uma faca normal, arranque as asas também. Por fim, ligue o processador e destrua todas elas.
Essa era a parte mais prazerosa do trabalho, Antônio sentia de fato uma espécie de orgasmo em segurar aquele resto de carne suja nas mãos. O mesmo ato repetido várias vezes, joga no tubo e empurra, ainda há sangue. Era nesse ponto que os pombos viravam frangos. Mas o trabalho não cessava aí, continuava.
Lavar aquela massa de carne e osso e temperá-la. Pro pão, então, pra rua.

18 de set. de 2008

Cadê a filosofia?

Certa vez li um artigo, de um senhor com idéias muito interessantes, que a filosofia consiste na desbanalização do banal, ou seja, em tornar o que é comum, corriqueiro e trivial em objeto de abstração, objeto de crítica ou mesmo pensamento.
A não-filosofia, ainda segundo o velhinho sabido, é o estado de tédio, para mim, nada mais certo. Os dias se passam numa monotonia espantosa apesar dos acontecimentos interessantes que se desenrolam no passar das horas. Fazendo um dos meus tradicionais caminhos do dia me deparei com situações que gerariam verdadeiras discussões ideológicas, críticas à sociedade, emfim, tantas coisas que não cabem nas palavras. Tudo tão excitante, tão fervoroso, gritante e você num estado de tédio paralítico.
O que primeiro me chamou a atenção foi cert* candidat*, que não cito o nome por razões não óbvias, fazendo corpo-a-corpo com eleitores na praça, agora mesmo a dez minutos atrás. O que chamou a atenção foi o aparato logístico e estratégico que acompanhava o duas pernas.
Depois me vêm aos olhos uma moça nova, bonita, mas com roupas muito extravagantes - diga-se de passagem, comuns por aqui, olha a banalização... -, tinha também cabelos a Bob Marley, se é assim mesmo que se escreve, e uma calça que me fez pensar que ela era da África, certamente não era, o fenótipo evidenciava isto. Atrás dela uma grávida me roubou a atenção, devia estar no nono mês com o feto com o braço pra fora! Quando virou o rosto para o meu lado vi o quanto era feia. Mas tratar de sexo aqui, nesse ponto, seria frustrante para mim e para o leitor.
Sigo reto pela habitual vereda, e como gosto dessa palavra, me soa familiar apesar de só ter visto na capa do livro do Guimarães. Eis outra questão para desbanalizar, vamos debater o uso de nossas palavras. Os limites da minha linguagem são os limites da minha razão? Êta mania de não deixar a cabeça em paz, às vezes ela tem que esfriar, mas como esfriar se tanta coisa acontece lá fora. O jeito é continuar pela vereda de cabeça baixa e boca calada, se ao menos tivesse alguém para conversar durante esse tempo de caminhada, evitaria tanta abstração. Mas essa é uma cidade de solitários.

22 de ago. de 2008

Dias

Um homem deve ter cuidado. Deve ter muito cuidado. Quando ele acorda e sente o quarto nublado, ele deve ter cuidado. Quando o café desce pela garganta suavemente, deve-se desconfiar. Quando as paredes parecem gemer em silêncio e mudam de cor, um homem deve ficar atento. Toda a mobília guarda coisas imemoráveis e delas brotam fantasmas da cor do vento, que agem como o vento, levanta tudo a sua volta e enchem nossos olhos de areia. Os velhos, que são fracos, fecham os olhos. Os jovens fingem não sentir, mas sentem. Por isso, todo homem deve ter cuidado, pois nunca se sabe ao certo quando um ninho é feito em cima de nossas cabeças.
Toda cidade é cinza e, às vezes, o céu fica cinza, não se deve deixar levar por essas bobagens, é perigoso. Quantos já não se foram assim? João, Roberto, Aninha. Quantos sem rosto, sem vontade, sem voz. Eles também são fantasmas, e estão na mobília, dormindo. Estão nos óculos dos tristes e nunca, nunca vão embora. Viver é muito perigoso, viver é muito perigoso.
Sim, a morte se aproxima, mas quê é a morte senão o maior ato em vida A morte é a nossa carta de alforria. Sim, a saudade sempre vem, mas os tempos passados não. Não nos resta mais nada, não tenho nada, por isso é preciso tomar muito cuidado, ficar muito atento e não se deixar levar por esses dias de embriaguez.

24 de jul. de 2008

Pergunta inconveniente


Eu vivo rindo de nós, os humanos, com todas as nossas crenças e costumes que foram adquiridas em não sei quantas gerações passadas e que, por teimosia e medo de mudar, ainda mantemos.
Peguei certo dia um ônibus para ir à praça passear um pouco e comprar um jornal, não era horário de pico, mas não tinha onde me sentar, então me acomodei perto de uma senhora que estava sentada ao lado de uma criança que calculo, tinha uns seis anos, provavelmente sua neta. A menininha não parava quieta no banco e a vovó a advertia sem parar, até que por um momento ela sentou, antes não o fizesse, olhou com aqueles grandes olhos infantis a senhora e soltou uma inconveniente pergunta.
- Só tem uma coisa que eu não entendo. Como é que pode existir Deus.
- Hã?
- É, porque, pensa bem, se Deus criou tudo, quem criou ele? Eu perguntei para a minha mãe ontem quando agente voltava da igreja e ela disse assim pra mim, olha aqui ó, disse assim pra mim: “isso é pergunta que se faça Ana, Ele sabe como fez tudo”. Mas acontece que eu também quero saber como Ele fez, por que que só Ele pode saber e eu não, hein?
- Hum.
- Aí eu perguntei, presta atenção em mim, aí eu perguntei se ela sabia e ela respondeu que sabia, mas não ia me contar porque eu sou muito novinha. Mas, não é esquisito mesmo, todo mundo diz que Ele criou “tuuuuudo”, se é assim, ele se criou, mas como é que se cria a você mesmo?
- Olha que a gente ta quase chegando no nosso ponto...
- Ai! Não dá pra entender. Você é bem mais velha que a minha mãe, não é. Então me conta, como é que se explica isso?
- È muito complicado mesmo.
- Não tem problema se eu não entender, eu só quero que me expliquem. Explica pra mim, eu prometo que não conto pra ninguém que você me contou.
- Hoje está muito quente, você quer tomar um sorvete na lanchonete antes de chegar na casa de sua mãe? Eu tô com uma vontade...
- È! Eu vô querer de morango com chocolate, você compra um pra mim? Legal, mais eu quero com bastante cobertura e...
Durante toda a conversa eu fiquei pensando em Santo Agostinho, Nietz e em todos nós, humanos, que insistimos em nos torturar com essas perguntas. Depois de refletir por um minuto me convenci de que a velha senhora tinha razão, a melhor resposta é um sorvete.

10 de jul. de 2008

Best Chico



- Bom dia, querida, por favor, um cafezinho. Não, sem açúcar, isso... obrigado!
- São um e sessenta, seu Zé.
- Aqui está, e me da mais um jornal. Ok, obrigado. Até mais.
Desceu a rua com a calma que seus 64 exigem, foi devagar com o jornal embaixo do braço, fazia frio e, mesmo sendo oito da manhã, ainda havia neblina. Chegou numa casa no fim da rua, passou pelo jardim de poucas folhas, algumas rosas, e parou em frente a uma porta arranhada e com tinta descascada, tirou o molho de chaves barulhento e entrou.
- Ai, ai! Essas dores nas costas... saia da minha cadeira bichano! Pronto, hummm. Vamos ver então. Inflação atinge tanto, a moda das americanas chegas as praias, acidente mata dezesseis e ... Nossa! É o Chico! Não, será mesmo? Pior que é! Olha só... “ O ‘Chico do bandolim’ faz sucesso no exterior”.
Eu não creio. Quem te viu, quem te vê, Chico. Não faz nem bem um ano que você foi embora daqui, parece que foi ontem que a gente se encontrava no bar para tomar uma pinguinha e jogar sinuca. E às vezes o dono do bar tinha que pedir para você parar de tocar aquele bandolim, pois estava incomodando os outros clientes, e perturbava mesmo, não parava um minuto! Eu até que gostava, mas você, Chico, venerava aquele pedaço de pau cheio de cordas.
“O fenômeno brasileiro vai, nesta sexta feira, para os Estados Unidos se apresentar em uma turnê...” Poxa! Mais o coitado nem fala inglês, se atrapalhava já no português sem nem precisar beber. Dizia “vamo, Zé, vamo que o negócio hoje vai pegar no fogo” e como pegava! Era um samba atrás do outro. “Quando perguntamos do que ele mais vai sentir saudades do Brasil, disse: Há! Sem dúvida é das praias. O azul do céu junto com o do mar além é claro, das mulheres do Brasil”. “- Sabe, eu acho que não existe mulher mais linda e agradável que a brasileira, mas não sei por que diabos a maioria fica querendo ser como as branquelas européias, eu gosto mesmo é de cor! De volume e paixão (risos).
- Esse Chico! Não presta nem nunca vai prestar!

30 de mai. de 2008

Cuidado com as generalizações


Existem certas coisas que não me entram na cabeça. Por exemplo, a beleza. Não quero ser precipitado em meus pensamentos confusos, mas acho que todos desejam serem belos, digo, bonitos, pois o termo belo sempre me lembra o período medieval e uma fala diferente da que uso, caprichos da linguagem. Por que diabos, desejamos ser bonitos? Bom, o ser humano como ser social busca, para se sentir realizado e encontrar, mesmo que transitoriamente, a felicidade, que é fim último, se relacionar com outros seres humanos. Ouvi isso em algum lugar, talvez a TV, e também me lembro de algo que dizia ser de natureza biológica os seres sentirem aversão pelo que é feio e atração pelo bonito, algo como afastar-se do que é nojento para evitar doenças. A partir disso procurei tirar algumas conclusões, alguma confusas e talvez sem lógica, mas vá lá, filosofar se aprende filosofando. Os humanídios, que é como chamarei a partir daqui os seres humanos, buscam não só serem bonitos, mas embonitarem-se continuamente para se destacarem em um meio social e serem admirados e tomados como formas ideais, ganhando, assim, caráter de valor, talvez poder também, que tendem a conduzi-los a felicidade.
Assim, todos os humanídios, hipoteticamente, gostam de se sentirem bonitos. Bom, resolvi testar essa hipótese.
Saí imediatamente e logo encontrei uma moça que lia um desses livros do tal Paulo, sentada no banco da praça logo ao lado de minha casa. Aproximei-me com cuidado e sentei-me ao lado dela. Não era feia nem bonita, meio daquele jeito apático.
- Bom-dia, disse.
- Bom-dia.
Não falei mais nada, comecei a olha-la lendo, aparentando muita admiração. Não demorou muito ela percebeu meu olhar indiscreto. Mantive-me firme no objetivo de testar minha hipótese, continuei o teatro.
- Quê foi?
- Desculpe-me, mas não pude deixar de reparar seus olhos lendo, são tão lindos.
- Obrigada, respondeu meio indiferente, continuei.
- A senhora é muito bonita, nunca vi uma beleza assim tão natural, esses cabelos presos e os óculos dão uma impressão de intelectualidade. E...
- O senhor me desculpe, mas não gosto de ficar sendo elogiada por desconhecidos. Com licença. E se levantou e foi saindo, mas não desisti, levantei-me e entrei na sua frente.
- Mas por quê? Você não sente prazer, não se sente melhor se sentindo bonita?
- Como assim se sentindo... ora, tome! Que é pra ter mais respeito, tarado louco.

28 de abr. de 2008

Engano


Era uma casa grande de dois andares e vista para um grande lago, ao lado do quilometro 412 da BR 226 . Logo que chegou, Matilde subiu as escadas analisando todos os detalhes da nova casa de verão que seu pai havia comprado. Vendera a antiga e mais um carro para adquira-la. Chegou no seu quarto, jogou sua mala na cama e pôs-se na janela a observar o grande lago. Várias árvores em torno do lago e montanhas ao longe. Tentou abrir a janela e respirar o ar que a seduzia. Fez força, lidou, rubrou, bufou, mas não pode abri-la, estava emperrada. Pensou no tempo em que aquela janela passara fechado, seu pai disse que o último morador foi embora com a família para a França há dois anos. A casa estava em perfeito estado, só a janela de Matilde não abria. Desceu as escadas e pedia a ajuda de seu pai
- Amanhã eu vejo isso, Matilde, agora temos que preparar o almoço e limpar a sala.
Saiu para ver a casa por fora, não tinha nada de especial. Dando a volta entorno da casa se deparou com sua janela emperrada, pegou uma pedra da terra amarela e atirou. Mas não passou nem perto, caiu no telhado abaixo da sua janela, perto da chaminé. Resolveu observar o lago, caminhando entre as altas árvores que o cercavam ficou admirada com o negro das águas, parecia um lago sem vida, o vendedor afirmou que ainda havia peixes...
No dia seguinte, desceu e tomou seu café e ainda na mesa lembrou seu pai, que lia uma coluna esportiva, do prometido.
-Está bem, vamos lá.
Subiu as escadas expressando o dissabor de abandonar sua crônica com violentos passos na madeira ascendente.
-Matilde, vai pegar uma chave de fenda, a do cabo verde. Essa mesmo. Isso... agora
força e... porcaria. Traz o martelo. Quero ver agora. Pronto.
Então lá estava Matilde desdobrada em frente a janela observando a calmaria do lago. Teve a atenção desviada para as telhas, muitas das quais já quebradas, que ficavam em baixo de sua janela. Telhas vermelhas, amarelas talvez, velhas sem dúvida, algumas com musgo verde. Foi acompanhando a diversidade de cores que se apresentavam a ela, esticando cada vez mais seu corpo para fora da janela, foi quando viu a chaminé onde atirara a pedra, nesse momento só estava apoiada pelas mãos pois seus pés desprenderam-se do chão.
-Menina! Quer morrer é! Tá quase caindo da janela!, disse a mãe.
A pequena envergonhada desceu de seu curto vôo e foi quieta para a sala.
Mas fazer o quê nesse verão, assim, sozinha; nem TV tinham na nova casa.
No dia seguinte acordou mais cedo que os pais, e ainda de pijama abriu a janela e, num ímpeto, pulou-a e começou a caminhar pelas telhas, elas estavam geladas e podia-se sentir o musgo entre os dedos, os galhos e tudo mais que pode parar em coma de nossas casas. Chegou com muito cuidado perto da chaminé, com sua mão delicada acariciou-a para sentir seus tijolos que já se transformavam em areia em seus dedos. E o mesmo ímpeto que a fizera pular a janela agora a fazia pensar na besteira que estava fazendo. Poderia cair, se machucar, é muito grande a altura, e mesmo que não fosse seus pais poderiam descobri-la. Sim, sim, deveria voltar imediatamente, porém com muita cautela. E um virar infeliz de pescoço, vê uma coisa estranha.
Era um envelope amarelado e surrado, não se conteve e deu um passo para pagá-lo. Uma telha se quebrou, tentou se segurar na chaminé mas ela se quebrava em cada tentativa, caiu e foi deslizando em silêncio total pelas telhas, os musgos não ajudaram, precipitou-se telhado abaixo tão aterrorizada que não pode gritar.
Na mesma semana a casa se tornou-se deserta de novo, o lago continuava silencioso, as árvores imponentes e imparciais a tudo. A carta apenas continha esses versos:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida minha face?


Apesar da suavidade dos versos, Matilde sempre será lembrada como uma suicida.

15 de abr. de 2008

Adivinhação (adaptado de Domingos Pelegrini)


Estava com minha família na praia quando fatalmente percebi que havia acabado a cerveja de meu isopor. Deixei minha mulher tomando sol e meu filho de seis anos brincando na areia e fui atrás de um bar. Com os olhos ocupados em procurar um boteco ou qualquer outra coisa do gênero, vi um garotinho mais ou menos da idade do meu filho do lado de um buraco de caranguejo.
Ele olhava o buraco, agachava e logo levantava esperando que o caranguejo saísse, mas não conseguia vê-lo. Aproximei-me e perguntei o quê ele estava fazendo. Tímido, me respondeu que nada, mas eu disse que sabia que ele estava querendo ver o caranguejo sair do buraco. Ele ficou surpreso comigo. Eu sabia que o caranguejo não sairia com o menino lá em cima do buraco, então o fiz dar um passo como quem não quer nada e disse que o caranguejo já estava saindo. Ele olhou e ficou animadíssimo quando viu o bicho com a cara pra fora do buraco.
- Como o senhor sabia que o caranguejo iria sair?
- É que eu adivinho coisas, quer ver? Olhe aquele navio lá no meio do mar ele traz..., cara de concentração,... várias televisões, televisões bem grandes.
- Oh... Como o senhor sabe?
- Eu simplesmente adivinho. Olhe, eu sei que você..., cara de concentração, ... veio à praia com seus pais e .... seu pai lhes trouxe aqui de carro, não é.
- É, é sim. O senhor sabe de tudo.
- É, mais ou menos...
- O senhor pode prever o tempo?
- Sim
- Amanhã vai chover ou vai fazer sol?
Olhei para o céu que não tinha quase nenhuma nuvem e respondi confiantemente:
- Vai fazer sol o dia inteiro!
O menino não se continha de alegria, dava saltos de alegria e me arrancava sorrisos. Então vi um homem alto e loiro se aproximando, logo vi que era o pai do menino.
- Pai , pai esse homem faz adivinhações. Ele acertou quando o caranguejo ia sair do buraco e sabia o que tinha naquele barco lá. Também falou que amanhã vai fazer sol, então nós podemos ficar na praia mais um dia, né.
- Então o senhor faz adivinhações. Por favor, venha aqui um pouquinho.
Nos afastamos alguns passos do menino e o pai expôs o problema.
- Não sei o que o senhor falou pro meu filho, mas hoje nos temos que voltar para a capital. Dei graças a Deus por ter dado no jornal que ia chover, foi a única forma de convencê-lo a ir sem choro. Seja lá o que o senhor adivinhou, faça este fafor, desadivinhe!
Aproximei-me do menino, agachei, e disse a ele da forma mais delicada e animadora que tinha me enganado, que choveria muito amanhã e ninguém apareceria na praia, todos ficariam em suas casas. O pobre chorou demais e foi buscar o braço do pai que me deu um sinal com a cabeça, e acho que deveria significar “ele se recupera, é só mais um período de férias”
Saí envergonhado com a situação que acabara de passar. Vi minha mulher sentada lendo um livro, caminhei na direção dela com o máximo de naturalidade possível, mas isso nunca dá certo.
- Por que você demorou tato? Onde estava?... Tá com cara de quem andou aprontando...
- Adivinhou.

26 de fev. de 2008

Pétalas de fogo

Todos os amigos e familiares que os viam juntos daquela forma diziam: “que casal mais lindo” ou “vocês vão ser muito felizes, se Deus quiser”. E assim foi, descartando-se um ou outro desentendimento, coisa mais do que normal. Passaram-se dois anos, nasceu Rogéria, um bebê que mais parecia um anjo, como os tios orgulhosos diziam.

Então estava feita a família dos sonhos: o marido, Oswaldo; a esposa dedicada, Ema e o bebê abençoado, além do carrinho recém adquirido e uma casa cercada por grandes e belas árvores. Aliás, um jardim de dar inveja a qualquer um da vizinhança, lindas flores, lindas e muitas. O tempo passou como o vento no rosto, e Rogéria, já com doze anos, havia adquirido o perigoso hábito, para desespero de sua mãe, de brincar com fogo. Já aos oito não perdia a oportunidade de, quando a mãe se distraía com a novela, ir a cozinha e brincar com o isqueiro ou com os fósforos, o quê fosse. Fumaria só pela companhia da brasa se a idade permitisse. A brincadeira só acabava quando Ema se levantava instintivamente do sofá ao ouvir o choro estridente da filha. Ela aparecia chorando, segurando o braço esquerdo ferido pelo fogo, sempre o esquerdo, que já estava com várias marcas de queimadura.

Não adiantava repreender, nem bater, tampouco esconder o “brinquedo” da menina, cedo ou tarde o silêncio da casa era violado pelo choro da pequena.
Passara-se mais um ano e Ema se viu grávida novamente, a família toda do casal, como antes, se mobilizou. Lucas acaba de abrir os olhos para o mundo e Oswaldo agora se sentia completamente realizado com um filho, filho homem. Todos os olhos se viraram para o mais novo integrante da família, que seria advogado como o pai. As mulheres se deliciavam vendo e tocando o enxoval, se escandalizavam de alegria. Rosana olhava tudo estática, em um canto, quase esquecida.
- Vem ver o seu irmãozinho, Rosana - dizia o pai orgulhoso - ele não é lindo? Heim?
- É muito pequeno... não é? Bonitinho.

Mais alguns dias e várias pessoas ainda estavam na casa para ajudar nos cuidados de Lucas, a mãe estava um pouco debilitada ainda, não foi um parto fácil, seis horas. E foi quando todos estavam reunidos na sala, gargalhando alto, que Rogéria chegou e se sentou rapidamente.
-Que cheiro do queimado é esse? Perguntou alguém.
-Você andou queimando alguma coisa, dona Rosana?

Olhando fixamente para o chão, balançou a cabeça dizendo que não. Oswaldo levantou-se seguindo o cheiro e quando entrou na cozinha pode ver pela janela uma luz lá fora. Abriu a porta que dava para o jardim, desesperou-se: “Socorro, alguém... o quintal tá pegando fogo. Todos saíram e viram uma pequena árvore pegando fogo, bem como alguns arbustos envolta dela. Foi um deus nos acuda. Os homens tiravam as camisetas e batiam no chão de onde brotavam as chamas, inútil. O fogo só foi controlado quando Oswaldo pegou sua mangueira de jardim e pouco a pouco, apagou o incêndio com a paciência de um suicida.

A menina apanhou como nunca antes, na frente de todos. Mas o pior foi ouvir as repreensões de todos os parentes que ainda estavam na casa, enfrentar o isolamento causado pela vergonha e pelo remorso. Chorou muito no afã de ser acalentada, não foi.
Agora vivia mais calada do que nunca. Mas a memória não é auxiliada pelo tempo, a irritação dos pais foi passando, junto com o susto e principalmente com os parentes que nesse momento já haviam retornado para suas casas e deixado Ema, enfim, ser mãe de Lucas.

Restabelecida a normalidade da casa, Oswaldo resolveu levar Ema para um almoço romântico, no restaurante Arronax, e talvez dançar uma ou duas músicas só para satisfazê-la, depois, voltar para casa e dormir, trabalharia cedo amanhã, afinal, agora tinha uma família grande para sustentar nos seus velhos ombros de advogado.
No dia marcado Ema arrumou-se com muita sutileza, paciência e talento, como quem tivesse medo de perder a beleza, a juventude. Mas estava maravilhosa. Ela, ter tido um filho a poucas semanas? Ninguém diria, mas ela temia a idade, considerava a beleza a maior qualidade feminina, sem ela não se vive. Saíram. Euforia dela, satisfação dele.

No meio do almoço, Oswaldo fez uma cena das mais românticas. Com o vinho dos copos refletindo as mãos dadas do casal, jurou nunca ter amado alguém tanto, impossível viver sem ela, mil cerimônias. Ela chorava com medo de borrar a maquiagem e segurava os soluços, o que os fazia sair ainda mais violentos. Ela, Balbuciando com saliva entre os lábios, jurou que ele seria o único até a hora da morte, levemente embriagada.

Dançaram, não uma, nem duas, mas quatro. O casal mais lindo do mundo. Demoraram muito em sua alegria, pegaram trânsito. Começaram a se preocupar, o bebê devia estar acordado, chorando, e Rogéria não sabe tratar dele. Não encontrara nenhum sinal verde na vinda, mas sorriam. Enfim, chegaram.

Rogéria está assistindo TV, Ema entra no quarto de Lucas, mas, não está lá. Sente o peito apertar e questiona a menina onde o pequeno está, a resposta é substituída pelos gritos de Oswaldo que saem da cozinha. Ela corre para lá, vê a porta que dá para o jardim aberta. O marido caído em meio à grama. Imobilizou-se, estática, diante da cena do braço de seu bebê carbonizado, saindo da terra marrom-vermelha, onde já nasceram as primeiras rosas depois do incêndio. Em meio àquelas cores cálidas da natureza, a rosa negra parecia desfazer-se e juntar-se ao vento em que respirava.

21 de fev. de 2008

Casa de muitos




São muitos os que passam dia a dia pela Rua das Flores, perto do Bosque Tiradentes. São homens que vão trabalhar mulheres que vão passear namorados que vão se amar e alguns velhos que vão chorar. No caminho para o Bosque, dentre várias casas e comércios que compões a rua, havia uma que pouco encantava os olhos. Quem poderia imaginar que naquela humilde casa já desgastada pelo tempo morava um artista? Esse artista não trabalhava com tintas, nem argila, nem sons, nem alegria, tampouco estase.


Vitor não era famoso e se tinha esperança de ser, era apenas depois da morte, como muitos de seus autores preferidos. Homem só, saía apenas para ir ao escritório, onde passava boa parte de seu dia preenchendo sua mente com aquela realidade tão leve, tão alienante, que era de alguma forma o que não o deixava enlouquecer com a indiferença diária com a qual a vida o tratava, com a qual ele mesmo se tratava. Mas era no começo da noite ao chegar a sua casa fria, que ele se transformava em um ser maior. Ia para o quarto, sentava e começava.
Tão logo se sentava, ao seu lado surgiam várias almas, uma a uma, desabrochando dos móveis. O grande mestre Virgílio, a infiel Amélia, seus três filhos, o maestro de Florença. Vitor se perdia dentro de seu pequeno quarto, agarrava-se a sua mesa para não se perder naquele imenso vórtice de personagens que gritavam seu nome: “Vitor, Viiitor...”. As almas voavam, sumiam, davam lugar a outras que vinham surgindo, retornavam. O próprio silêncio parecia fugir daquela casa por onde tantas vozes, risos, lamentações e orações ecoavam. Toda noite era um pandemônio, Vitor entorpecia-se com seu narcisismo e de seus companheiros do além. Pouco a pouco, as almas cansavam de atormentá-lo e dele se escondiam de volta nos móveis, nas paredes, nele próprio. O pobre homem estava acabado, mais uma obra para sua galeria particular, mas a que preço, pensava ele. Essa vida sem graça, sem despeito. Como poderia viver um homem a vida todo só? Como poderia encontrar sentido para se levantar dia após dia sabendo que não poderia jamais sair daquele sentimento de angústia que o regia.


O sono veio como um anjo a tirar-lhe daquela agonia. Deitou-se, dormiu. Sonhou com sua morte, os pulsos vermelhos chorando e ele, inerte, sentado em algum banco de praça. E quando acordasse certamente tentaria se convencer de que ele era um forte por suportar tudo aquilo sozinho, um touro. Mas... não seria o contrário? “o meu revólver, é o que me basta... um tiro... sim. Medo? Medo de quê? Não posso crer que eu, nesse ponto...”. A solidão não o incomodava, a alegria, a amada, o tempo, a saudade; nada mais o abalava. E ninguém que passasse à noite pela rua das Flores, perto daquele bosque dantesco onde namoravam os casais, poderia imaginar que lá mora, acima de tudo, um triste.

15 de fev. de 2008

Beleza íntima

Toc-toc-toc na porta do quarto de Rita.
- Você já está pronta minha filha?
- Já vai! Espera um pouco.

Mariana desceu as escadas e sentou a mesa com seu marido que lia o jornal ao lado de uma xícara vazia.
- Ela disse que já está descendo...

Mal terminada a frase, o som dos passos na escada denunciam Rita, os que a esperavam vão até a porta da frente esperá-la. De lá ficam surpresos com a filha.
- Nossa, filha! Quanta maquiagem, quase não te reconheço, disse o pai.
- Para com isso Otávio! Você está linda filha, agora vamos logo antes que nos atrasemos.

Era assim todos os sábados, às vezes iam ao teatro, outras ao cinema, enfim. Os pequenos quatorze anos de Rita não escondiam sua beleza física. Era alta e magra, cabelos negros quase longos e olhos profundos auxiliados pela maquiagem. Sua beleza infantil somado a sua sensualidade adulta atraíam os mais audaciosos olhares nas ruas.

Desde que Mariana lhe ensinara a usar seus batons, sombras e outras coisas, a pequena foi tomando um gosto ímpar pela atividade. Caprichos da idade, afinal já era quase moça feita como diziam os tios que freqüentemente os visitavam.
Ha! Se ela soubesse na sua terna infância que não importa o quanto se pinte o ovo um dia ele, fatalmente, se quebrará. Grita e grita a beleza que se vai para conseguir um não se sabe que de um mistério, assim, turvo e doido. É fato consumado. Veio o pedido: “posso usar um pouco para ir à escola, todas usam”, como negar o que não se nega. O espelho do quarto não cansava de refletir a mesma imagem todos os dias de manhã. Os olhos frios ganhando cor, o cabelo forma, o batom audaz que beija os lábios virgens. No jogo de Narciso não se encontra culpados nem vítimas, só atores atordoados de ópio. O princípio é sempre o isolamento, onipotente e absoluto. O telefone tocou: “alô, é a mãe de Rita... bem, sua filha, não de hoje... fora da aula... rapazes, tu sabes?” Atordoada perdeu-se a razão.

Castigo é não viver, o pássaro que não voa. “De casa você não sai”. Choro e mais choro enchiam a casa, Otávio nem acreditava, estaria grávida?
Totoc-toc na porta.
- Já está dormindo, filha?
- Não...

Entra, e surpreende-se ao ver Rita em frente ao espelho.
- O quê você está fazendo! Já disse que daqui você não sai. Pare com isso!
- Eu não vou sair, você não entende? Tenho que estar bonita, estou me preparando para quando ele chegar, o sonho.
- Você está louca! Vá limpar essa cara nojenta antes que eu arrebente ela, menina estúpida!

Foi demorou mais de meia hora, lavou-se com álcool e lágrimas. Seu rosto se desfazendo na frente do espelho não pede suportar. Depois do banheiro passou na lavanderia e bebeu um líquido rosa sem saber que utilidade tinha, foi como engolir uma rosa cheirosa e com espinhos. Trancou-se no quarto sem falar com ninguém, e de lá nunca mais saiu bela. Uma rosa com espinhos.

14 de fev. de 2008

Curitiba dos desvalidos

I

Ainda posso sentir o gosto daquele cigarro acesso queimando entre meus dedos. Sentado na base de um obelisco na Praça Tiradentes, eu não podia acreditar no que acabara de acontecer comigo. Eu amava Rogéria, e sei que ela também me amava, mas ela teve o topete de abandonar, e de fazer aquele “showzinho” na frente da Igreja, na frente dos olhos daqueles dois anjinhos que, lá de cima, nos olhavam inertes, estavam tão perplexos quanto eu. E tudo por causa de uma menininha de dezessete, uma brincadeira. Eu teria dado tudo por Rogéria, mas depois daquela tapa, que o frio de hoje parece fazer doer ainda mais, tenho vontade é de lhe dar um tiro no peito. Não, no peito não. Seria melhor naquela cara deslavada dela. Hum... Quero ver o quê vai fazer agora... Não tem para onde ir. Com certeza a esta hora deve estar lá em casa arrumando suas roupas, a maioria eu que comprei, com o dinheiro do meu suor. Deixava de satisfazer minhas vontades para ela estar bonita, e como ficava bonita. Nos fins de semana nos saíamos para um sambinha, tinha orgulho de caminhar ao lado dela, nenhuma se comparava a ela, Rogéria tem uma beleza singular que enfeitiça meus olhos e embriaga minha alma de satisfação. Eu também não valho o feijão que como, dando mole bem aqui no meio da praça. Mas quem poderia imaginar minha nega em plena terça-feira aqui, na missa do centro. Talvez tenha vindo pedir perdão pelos meus pecados, pois ela sempre me pareceu uma santa. Sempre bebi, e ela sabia disso quando me conheceu, mas nunca ergui minha mão contra ela e disso ela não pode reclamar. No ônibus, de volta pra casa, ela deve ter chorado, ainda deve estar chorando. Acho que ela não vai levar todas as roupas, pelo menos não as minhas, é orgulhosa, mas, felizmente, sabe perdoar.

Talvez se sair daqui agora ainda possa encontrá-la já mais calma, o tempo é grande consolador.
Mas talvez queira brigar, me chamará de filho da puta, com aquela voz quase melíflua.Aquela voz levemente que me chamava para a cama, que dizia desembaraçadamente que não precisava de mim para ser feliz.

É triste ver aqui, na praça, os casais parados em algum poste ou sentados em um banco imundo, se beijando. Se beijam como se procurassem algo dentro um do outro, algo que nunca se acha, algo que nunca se sente. Procuramos desesperadamente. Observando todos esses casais, às vezes imagino que ela me deixou por esse meu modo frio de ser. Não gostava de andar de mãos dadas, de dizer constantemente depois de nossos beijos mecânicos que a amava, que não saberia viver sem ela. Mas para mim isso tudo não passa de uma grande besteirada sem valor algum. Se não gostasse mais dela já a teria abandonado a tempos, como fiz com várias outras, nunca me arrependia de deixá-las. Se alguma chorou por mim, chorou de burra, pois não se chora o leite derramado. Foi assim que o meu velho me ensinou desde pequeno. Grande homem era meu pai, lembro até hoje o dia em que, na cozinha, escorreguei e quebrei meu braço. Do chão me levantou pelo próprio braço fraturado. Gritava, gritava, e só não gritava mais porque o choro tomava meu fôlego. E ele me jogando no banco de trás do seu fusca gritava também: “Cala a boca, porra. Homem não chora, homem não chora”. Eu só ouvia mas pouco podia fazer, com o fusca virando de um lado para o outro, ou me consolava contorcendo-me de dor. Talvez Rogéria também esteja se contorcendo de dor, encima de nossa cama. Chego até a invejá-la por um segundo, elas têm lágrimas para chorar.


II

Aquele maldito, inconseqüente, não acredito que fez aquilo comigo, o quê que aquelazinha tem que fez ele me trair, ele que chegava até ser carinhoso às vezes, e no meio da praça ainda por cima... Aquela vagabunda. Tenho que correr, lá vem o ônibus. Passo a catraca aos soluços. Entro, todos parassem me olhar, quê importa? Seguro-me e parto. Vejo minha imagem dispersa na janela, acho que aquela puta borrou meu batom quando me deu aquela tapa, maldita, devia ter revidado, ou dado a outra face. Que fique com ela aquele porco, eu não mereço ser tratada assim, não depois de tudo que fiz para ele.

Depois de ter lhe dado os meus melhores beijos, os abraços, as juras de amor. Por ele eu reneguei minha liberdade, cuidando da casa dele, só divertia-me nos finais de semana, mas por ele valia a pena. Há quanto tempo esse vagabundo deve me enganar? Com quantas? E pensar que se eu não tivesse aceitado o convite da Amélia para o batizado de seu sobrinho a estúpida estaria agora se perfumando para o infeliz. Penso que um dia irei acabar como essas velhas senhoras, que parecem não ter família, e andam quase caindo pelo ônibus, com suas curvas destemidas, sem que nenhum estudante dessas grandes escolas ceda seu lugar, as mochilas pesam mais que a idade.

Não consigo parar de chorar. Desço e entro no mar de gente no qual eu me afogo, gente também infeliz, maltratada, escarrada, desorientada. Sinto me afogar naquele mar de desgraça que se acentua com a minha, mas minha dor perto das desses coitados largados nos cantos da cidade não parece ser digna de lágrimas, mas choro.

Tão difícil achar um rapaz decente nessa vida que saibam amar, prefiro os indecentes, pelo menos eles me fazem feliz. Mas sei que esses são efêmeros, se achasse apenas um que não fosse, que não tentasse me fazer rir sem parar, que não se preocupasse em me fazer sentir infeliz ao seu lado, que fosse verdadeiro.
Será que já estou ficando velha?Fria? Será que me largou por eu não ser daq... Mas sempre o tratei bem com carinho, ele fingia não gostar das minhas carícias, mas eu sei que era puro orgulho masculino, talvez não fosse. Talvez se cansou de mim como quem se cansa dos bares, da descontração metricamente estipulada. Talvez o cinza da cidade, a revoada homérica dos pombos, os ilustres obeliscos, o céu anêmico, a sempre querida rosa... Uma loucura de momento dele, sem dúvida. Sei que ainda deve gostar de mim, os olhos negros dele deslizavam sobre minha face, sobre meu corpo... Sei que vai me procurar de volta. Agora é melhor eu ir para a casa da Cidinha, afinal, o quê pensaria de mim se voltasse para casa dele, que sou uma despudorada, uma qualquer e não vou me prestar a esse papel. Bom para ele aprender verá que não encontrará outra igual a mim, que sabe o que ele gosta. Agora já parei de chorar, não cabe a uma moça direita andar por aí assim, descomposta.


III

-João do céu, você viu como são os casai de hoje? Viu aquele pobre no meio daquelas duas, tentando evitar socos? Como pode...
- Pois é. O menino não sabia nem o quê fazer no meio da gritaria daquelas duas, e quando a loirinha deu a tapa! Que vexame.
- Lembra do tempo em que os casais aqui eram raros? Eles davam voltas e voltas pela praça de mãos dadas, mas não eram as “mãos-dadas-de-hoje”, as moças riam enquanto balançavam os braços duros de seus namorados, os braços colados que pendiam seguindo uma cadência... Lembra da cadência? E, diga-se de passagem, que elas gostavam de torturar os rapazes. Sempre que alguns mais acanhados resolviam tentar pegar-lhes a mão elas, um segundo antes que eles pudessem fazê-lo, levantava-as fingindo arrumar o cabelo ou apontando algo sem importância, hahaha.

- Mas veja, José, da mesma forma em que eram mais raros os amores, menos eram os desamores. Quantos meninos não vimos se acabarem neste mesmo petit-pavé onde não há pudor? Quantos sangue e massa encefálica não respingaram na fachada da nossa igreja, depois de gritarem que a vida era difícil demais, e com o mesmo dedo que as meninas usavam para torturá-los, os pobres atiravam contra si mesmos.
- A verdade é que elas é que matavam eles, elas que tingiam a calçada de vermelho. Mas no fundo eles gostavam.

12 de fev. de 2008

Dragão Chinês


Ao ver correndo um vulto no final da rua, lá pelas uma da madruga, Antônio ficou paralisado. Estático, com o cigarro na boca, tentava identificar a face que se aproximava rapidamente. Acalmou-se depois que viu que era uma mulher, cabelos longos.
- Roberta! O quê está fazendo aqui a esta hora?
Transtornada e ofegante, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e prosseguiu:
- É o dragão Antônio! Ele voltou. Ele vai me matar, juro que vai me matar. Socorra-me!
-Calma, calma. Que negócio é esse de dragão? Eu não estou entendendo nada, você está fugindo de quem?
- É dele que estou tentando fugir. Ele vem me perseguindo a muito tempo. Me faz fazer coisas que eu na quero, coisas que não sou capaz, ser uma pessoa que não sou. Ele veio me prender. Me prender e me matar!
-Você não está falando coisa com coisa. É um bicho que você viu no mato e estava fugindo? É isso?
- É. Isso mesmo.
- Mas, se acal-me, eu não estou vendo bicho nenhum. Ele já deve ter se ido embora.
E agora, com o fôlego, disse:
- Não, ele ficou lá em casa... Ele estava sentado na mesa da cozinha e disse que estava escrevendo um poema e ia ler para mim quando eu voltasse. Apavorada, deixei todas as panelas no fogo e fugi. Não deixe ele chegar perto de mim Antônio, por favor... Juro que morro só de vê-lo!
- Então foi um homem que invadiu a sua casa, um desconhecido? Eu chamo a polícia já!
- Não droga! Eu já te disse é um dragão! E eu o conheço bem, é verde e marrom, possui uma calda longa, e não tem chifres, sem nenhum chifre. Mas não se pode deixar enganar, entende?
- Você está louca, mulher? Bebeu?
- Não, não estou. Mas ele vai me deixar. Não me deixa sozinha Antônio, por favor fica comigo.
Antônio, que tinha a esta altura Roberta abraçada em seu braço, respirou fundo e tentou acalmá-la.
-Já disse pra ter calma. Eu te acompanharei até sua casa e você verá como não há nada está bem. Vamos.
- Não... ele está me esperando... vai me furar com aqueles olhos quando eu estiver dormindo, ao meu lado. Invejando meus cabelos... Não!
- Vamos logo, você está estérica!
Agarrou-a pelo braço e a puxou por dois passos.
-Não, me solta - e livrando-se dele num gesto brusco, gritou: - Ai! Deus acuda-me! Socorro, socorro! O dragão, o dragão.
As luzes da vizinhança começaram a se acender e, no meio do coral dos cachorros, ela correu até o fim da rua e sumiu no breu da noite. Nunca mais foi vista.