15 de abr. de 2008

Adivinhação (adaptado de Domingos Pelegrini)


Estava com minha família na praia quando fatalmente percebi que havia acabado a cerveja de meu isopor. Deixei minha mulher tomando sol e meu filho de seis anos brincando na areia e fui atrás de um bar. Com os olhos ocupados em procurar um boteco ou qualquer outra coisa do gênero, vi um garotinho mais ou menos da idade do meu filho do lado de um buraco de caranguejo.
Ele olhava o buraco, agachava e logo levantava esperando que o caranguejo saísse, mas não conseguia vê-lo. Aproximei-me e perguntei o quê ele estava fazendo. Tímido, me respondeu que nada, mas eu disse que sabia que ele estava querendo ver o caranguejo sair do buraco. Ele ficou surpreso comigo. Eu sabia que o caranguejo não sairia com o menino lá em cima do buraco, então o fiz dar um passo como quem não quer nada e disse que o caranguejo já estava saindo. Ele olhou e ficou animadíssimo quando viu o bicho com a cara pra fora do buraco.
- Como o senhor sabia que o caranguejo iria sair?
- É que eu adivinho coisas, quer ver? Olhe aquele navio lá no meio do mar ele traz..., cara de concentração,... várias televisões, televisões bem grandes.
- Oh... Como o senhor sabe?
- Eu simplesmente adivinho. Olhe, eu sei que você..., cara de concentração, ... veio à praia com seus pais e .... seu pai lhes trouxe aqui de carro, não é.
- É, é sim. O senhor sabe de tudo.
- É, mais ou menos...
- O senhor pode prever o tempo?
- Sim
- Amanhã vai chover ou vai fazer sol?
Olhei para o céu que não tinha quase nenhuma nuvem e respondi confiantemente:
- Vai fazer sol o dia inteiro!
O menino não se continha de alegria, dava saltos de alegria e me arrancava sorrisos. Então vi um homem alto e loiro se aproximando, logo vi que era o pai do menino.
- Pai , pai esse homem faz adivinhações. Ele acertou quando o caranguejo ia sair do buraco e sabia o que tinha naquele barco lá. Também falou que amanhã vai fazer sol, então nós podemos ficar na praia mais um dia, né.
- Então o senhor faz adivinhações. Por favor, venha aqui um pouquinho.
Nos afastamos alguns passos do menino e o pai expôs o problema.
- Não sei o que o senhor falou pro meu filho, mas hoje nos temos que voltar para a capital. Dei graças a Deus por ter dado no jornal que ia chover, foi a única forma de convencê-lo a ir sem choro. Seja lá o que o senhor adivinhou, faça este fafor, desadivinhe!
Aproximei-me do menino, agachei, e disse a ele da forma mais delicada e animadora que tinha me enganado, que choveria muito amanhã e ninguém apareceria na praia, todos ficariam em suas casas. O pobre chorou demais e foi buscar o braço do pai que me deu um sinal com a cabeça, e acho que deveria significar “ele se recupera, é só mais um período de férias”
Saí envergonhado com a situação que acabara de passar. Vi minha mulher sentada lendo um livro, caminhei na direção dela com o máximo de naturalidade possível, mas isso nunca dá certo.
- Por que você demorou tato? Onde estava?... Tá com cara de quem andou aprontando...
- Adivinhou.

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