7 de out. de 2008

Estrelas da cidade



Na noite anterior choveu, choveu muito. José estava em sua casa, solitária e bagunçada casa, encontrava conforto entre meus papéis.
- As estrelas são muito ofuscadas pelas luzes da cidade, mas hoje não posso vê-las, só vejo a chuva açoitar a terra lá fora, o vento assoviando uma melodia mórbida e alucinante. O ar fica tão pesado nesses dias, respiro como se houvesse concreto nos meus pulmões. Nem a lua, onde ela está? Vida maldita, mil vezes maldita! Sou um burro que não sabe viver fora desses papéis amarelados, dessa tinta envenenada! Esse silêncio parece rasgar a minha pele, coça e coça. Mas esse barulho de tempestade... batendo na minha janela, rangem as portas e o alarme dos carros da vizinhança dispara... estou enlouquecendo. Rápido, preciso dormir, fugir e encontrar um novo dia. Mas o sono é caprichoso demais, precisa estar tudo perfeito para ele aparecer.
O tempo acabou por vencer a teimosia do sono que não aparecia. A chuva ainda caia forte lá fora, explodia no telhado e, apesar do barulho, trazia uma estranha calma para todo o ambiente interno da casa. Tudo imóvel, na penumbra, os móveis pareciam flutuar.
- Acordei como um ébrio depois de sua noite de alegria, um trapo. Ora quem diria, no caminho para o trabalho, passando entre os muros pichados e vestidos com folhas de todo comércio, entre os andarilhos que enchem a paisagem, vi com surpresa que haviam repintado a desbotada faixa de pedestres da rua pela qual habitualmente passava. Vendo as calçada de peti pavêt ao redor, notei que entre as pedras sujas havia uma fina camada do que parecia purpurina, talvez de carnaval. Brilhavam muito, muito no meio das pedras negras e fedidas. Então comecei a rir, e rir mais, rir sem parar.

2 comentários:

Thiago Oliveira disse...

Olá Alan. Voce deixou um comentário no meu blog. Gostei bastante dos teus textos... muito bons!!

Alan Carlos disse...

Obrigado! Muito obigado.