28 de abr. de 2008

Engano


Era uma casa grande de dois andares e vista para um grande lago, ao lado do quilometro 412 da BR 226 . Logo que chegou, Matilde subiu as escadas analisando todos os detalhes da nova casa de verão que seu pai havia comprado. Vendera a antiga e mais um carro para adquira-la. Chegou no seu quarto, jogou sua mala na cama e pôs-se na janela a observar o grande lago. Várias árvores em torno do lago e montanhas ao longe. Tentou abrir a janela e respirar o ar que a seduzia. Fez força, lidou, rubrou, bufou, mas não pode abri-la, estava emperrada. Pensou no tempo em que aquela janela passara fechado, seu pai disse que o último morador foi embora com a família para a França há dois anos. A casa estava em perfeito estado, só a janela de Matilde não abria. Desceu as escadas e pedia a ajuda de seu pai
- Amanhã eu vejo isso, Matilde, agora temos que preparar o almoço e limpar a sala.
Saiu para ver a casa por fora, não tinha nada de especial. Dando a volta entorno da casa se deparou com sua janela emperrada, pegou uma pedra da terra amarela e atirou. Mas não passou nem perto, caiu no telhado abaixo da sua janela, perto da chaminé. Resolveu observar o lago, caminhando entre as altas árvores que o cercavam ficou admirada com o negro das águas, parecia um lago sem vida, o vendedor afirmou que ainda havia peixes...
No dia seguinte, desceu e tomou seu café e ainda na mesa lembrou seu pai, que lia uma coluna esportiva, do prometido.
-Está bem, vamos lá.
Subiu as escadas expressando o dissabor de abandonar sua crônica com violentos passos na madeira ascendente.
-Matilde, vai pegar uma chave de fenda, a do cabo verde. Essa mesmo. Isso... agora
força e... porcaria. Traz o martelo. Quero ver agora. Pronto.
Então lá estava Matilde desdobrada em frente a janela observando a calmaria do lago. Teve a atenção desviada para as telhas, muitas das quais já quebradas, que ficavam em baixo de sua janela. Telhas vermelhas, amarelas talvez, velhas sem dúvida, algumas com musgo verde. Foi acompanhando a diversidade de cores que se apresentavam a ela, esticando cada vez mais seu corpo para fora da janela, foi quando viu a chaminé onde atirara a pedra, nesse momento só estava apoiada pelas mãos pois seus pés desprenderam-se do chão.
-Menina! Quer morrer é! Tá quase caindo da janela!, disse a mãe.
A pequena envergonhada desceu de seu curto vôo e foi quieta para a sala.
Mas fazer o quê nesse verão, assim, sozinha; nem TV tinham na nova casa.
No dia seguinte acordou mais cedo que os pais, e ainda de pijama abriu a janela e, num ímpeto, pulou-a e começou a caminhar pelas telhas, elas estavam geladas e podia-se sentir o musgo entre os dedos, os galhos e tudo mais que pode parar em coma de nossas casas. Chegou com muito cuidado perto da chaminé, com sua mão delicada acariciou-a para sentir seus tijolos que já se transformavam em areia em seus dedos. E o mesmo ímpeto que a fizera pular a janela agora a fazia pensar na besteira que estava fazendo. Poderia cair, se machucar, é muito grande a altura, e mesmo que não fosse seus pais poderiam descobri-la. Sim, sim, deveria voltar imediatamente, porém com muita cautela. E um virar infeliz de pescoço, vê uma coisa estranha.
Era um envelope amarelado e surrado, não se conteve e deu um passo para pagá-lo. Uma telha se quebrou, tentou se segurar na chaminé mas ela se quebrava em cada tentativa, caiu e foi deslizando em silêncio total pelas telhas, os musgos não ajudaram, precipitou-se telhado abaixo tão aterrorizada que não pode gritar.
Na mesma semana a casa se tornou-se deserta de novo, o lago continuava silencioso, as árvores imponentes e imparciais a tudo. A carta apenas continha esses versos:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida minha face?


Apesar da suavidade dos versos, Matilde sempre será lembrada como uma suicida.

15 de abr. de 2008

Adivinhação (adaptado de Domingos Pelegrini)


Estava com minha família na praia quando fatalmente percebi que havia acabado a cerveja de meu isopor. Deixei minha mulher tomando sol e meu filho de seis anos brincando na areia e fui atrás de um bar. Com os olhos ocupados em procurar um boteco ou qualquer outra coisa do gênero, vi um garotinho mais ou menos da idade do meu filho do lado de um buraco de caranguejo.
Ele olhava o buraco, agachava e logo levantava esperando que o caranguejo saísse, mas não conseguia vê-lo. Aproximei-me e perguntei o quê ele estava fazendo. Tímido, me respondeu que nada, mas eu disse que sabia que ele estava querendo ver o caranguejo sair do buraco. Ele ficou surpreso comigo. Eu sabia que o caranguejo não sairia com o menino lá em cima do buraco, então o fiz dar um passo como quem não quer nada e disse que o caranguejo já estava saindo. Ele olhou e ficou animadíssimo quando viu o bicho com a cara pra fora do buraco.
- Como o senhor sabia que o caranguejo iria sair?
- É que eu adivinho coisas, quer ver? Olhe aquele navio lá no meio do mar ele traz..., cara de concentração,... várias televisões, televisões bem grandes.
- Oh... Como o senhor sabe?
- Eu simplesmente adivinho. Olhe, eu sei que você..., cara de concentração, ... veio à praia com seus pais e .... seu pai lhes trouxe aqui de carro, não é.
- É, é sim. O senhor sabe de tudo.
- É, mais ou menos...
- O senhor pode prever o tempo?
- Sim
- Amanhã vai chover ou vai fazer sol?
Olhei para o céu que não tinha quase nenhuma nuvem e respondi confiantemente:
- Vai fazer sol o dia inteiro!
O menino não se continha de alegria, dava saltos de alegria e me arrancava sorrisos. Então vi um homem alto e loiro se aproximando, logo vi que era o pai do menino.
- Pai , pai esse homem faz adivinhações. Ele acertou quando o caranguejo ia sair do buraco e sabia o que tinha naquele barco lá. Também falou que amanhã vai fazer sol, então nós podemos ficar na praia mais um dia, né.
- Então o senhor faz adivinhações. Por favor, venha aqui um pouquinho.
Nos afastamos alguns passos do menino e o pai expôs o problema.
- Não sei o que o senhor falou pro meu filho, mas hoje nos temos que voltar para a capital. Dei graças a Deus por ter dado no jornal que ia chover, foi a única forma de convencê-lo a ir sem choro. Seja lá o que o senhor adivinhou, faça este fafor, desadivinhe!
Aproximei-me do menino, agachei, e disse a ele da forma mais delicada e animadora que tinha me enganado, que choveria muito amanhã e ninguém apareceria na praia, todos ficariam em suas casas. O pobre chorou demais e foi buscar o braço do pai que me deu um sinal com a cabeça, e acho que deveria significar “ele se recupera, é só mais um período de férias”
Saí envergonhado com a situação que acabara de passar. Vi minha mulher sentada lendo um livro, caminhei na direção dela com o máximo de naturalidade possível, mas isso nunca dá certo.
- Por que você demorou tato? Onde estava?... Tá com cara de quem andou aprontando...
- Adivinhou.