24 de set. de 2008

O matador de pombas I

Já passa de duas horas da manhã na Praça Tiradentes. Os anjos do topo da Igreja olham fixos e com curiosidade para Antônio.
- Gruhl, gruhl, aqui, vem aqui, pro saco, outra, quem mais? Gruhl, gruhl.
Oito horas da manhã, Antônio vai à Praça novamente, vestido com um avental branco, botas, e carregando no ombro uma caixa de isopor com seus sanduíches.
Como ele teve essa idéia nem mesmo ele sabe, além disso, era preciso ter muito sangue frio para implementá-la. Brincava com sigo mesmo, dizendo estar fazendo um serviço para a cidade livrando-a desses animais que a infestam e a sujam. Dizia a placa na frente da caixa “sanduíches de frango”, nada mais.
- Por favor... quanto é? Perguntou uma senhora já de meia idade.
- Um e cinqüenta, senhora. Só um e cinqüenta.
- Eu vou querer um.
Pagou e sentou-se num banco próximo. A senhora dava uma mordida e oferecia outra aos pombos que estavam a sua volta, uma pra ela, uma pra eles. Ela não sabia comia um deles e que incitava os pombos ao canibalismo. “Talvez essa fosse a solução” pensou Antônio. Se os pombos começassem a se devorar a cidade talvez ficasse mais agradável. O leve sorriso do matador denunciava a sua felicidade em ver a mesma senhora alimentando aqueles animais sujos ao mesmo tempo em que mastigava uma batida de outros tantos. “Quem sabe ela própria tenha os alimentado um dia”.
No começo ele só pegava os pombos da própria Praça Tiradentes, mas foi evoluindo ao ponto de conhecer todas as praças da cidade de Curitiba, essa cidade fria e amarga, cidade dura de viver.
Às uma acordava, vestia-se, jogava o saco na caminhonete e ia para alguma praça. Duas e meia da manhã estava chamando os bombos, picadas e cortes na mão de Antônio. Quatro, a produção começava.
Primeiro passo, coloca-se uma grande panela cheia de água no fogão, enquanto ela ferve Antônio traz o saco para a cozinha, algumas já estão mortas, as sortudas. Mas Antônio não usa as mortas, gosta de vê-las morrendo, morrendo na boca das pessoas. Segundo passo, arranja-se um espaço na pia e uma faca bem afiada, sente-se com o saco de pombos do lado. Tem que ser rápido, puxa-se um de dentro do saco, apói-o na pia e corte a cabeça, jogue a cabeça no lixo, o resto numa bandeja. Pise na boca do saco depois que tirar uma, pra assegurar que nenhuma fuja.
A bandeja, normalmente, não acumula muito sangue, mas com isso nos preocuparemos mais tarde. Terceiro passo, as vísceras têm de ser arrancadas. Coisa simples de se fazer, a faca deve escorregar da altura do pescoço até as garras do monstrinho, faça isso em cima de uma bandeja com água, pois a sujeira é muita. Na mesma água das vísceras dê uma pequena lavada no bichinho e coloque-o num outro recipiente. Nesse ponto a água já deve ter começado a ferver, coloque-os todos nela por uns quinze minutos, a criatura tem muito voluma, mas pouca carne, então não se importe de ter que apertá-los dentro da panela.
O cheiro é forte e repugnante. Estamos chegando na parte interessante, passado o tempo recomendado, tire-as da panela e arranque suas penas com uma faca normal, arranque as asas também. Por fim, ligue o processador e destrua todas elas.
Essa era a parte mais prazerosa do trabalho, Antônio sentia de fato uma espécie de orgasmo em segurar aquele resto de carne suja nas mãos. O mesmo ato repetido várias vezes, joga no tubo e empurra, ainda há sangue. Era nesse ponto que os pombos viravam frangos. Mas o trabalho não cessava aí, continuava.
Lavar aquela massa de carne e osso e temperá-la. Pro pão, então, pra rua.

18 de set. de 2008

Cadê a filosofia?

Certa vez li um artigo, de um senhor com idéias muito interessantes, que a filosofia consiste na desbanalização do banal, ou seja, em tornar o que é comum, corriqueiro e trivial em objeto de abstração, objeto de crítica ou mesmo pensamento.
A não-filosofia, ainda segundo o velhinho sabido, é o estado de tédio, para mim, nada mais certo. Os dias se passam numa monotonia espantosa apesar dos acontecimentos interessantes que se desenrolam no passar das horas. Fazendo um dos meus tradicionais caminhos do dia me deparei com situações que gerariam verdadeiras discussões ideológicas, críticas à sociedade, emfim, tantas coisas que não cabem nas palavras. Tudo tão excitante, tão fervoroso, gritante e você num estado de tédio paralítico.
O que primeiro me chamou a atenção foi cert* candidat*, que não cito o nome por razões não óbvias, fazendo corpo-a-corpo com eleitores na praça, agora mesmo a dez minutos atrás. O que chamou a atenção foi o aparato logístico e estratégico que acompanhava o duas pernas.
Depois me vêm aos olhos uma moça nova, bonita, mas com roupas muito extravagantes - diga-se de passagem, comuns por aqui, olha a banalização... -, tinha também cabelos a Bob Marley, se é assim mesmo que se escreve, e uma calça que me fez pensar que ela era da África, certamente não era, o fenótipo evidenciava isto. Atrás dela uma grávida me roubou a atenção, devia estar no nono mês com o feto com o braço pra fora! Quando virou o rosto para o meu lado vi o quanto era feia. Mas tratar de sexo aqui, nesse ponto, seria frustrante para mim e para o leitor.
Sigo reto pela habitual vereda, e como gosto dessa palavra, me soa familiar apesar de só ter visto na capa do livro do Guimarães. Eis outra questão para desbanalizar, vamos debater o uso de nossas palavras. Os limites da minha linguagem são os limites da minha razão? Êta mania de não deixar a cabeça em paz, às vezes ela tem que esfriar, mas como esfriar se tanta coisa acontece lá fora. O jeito é continuar pela vereda de cabeça baixa e boca calada, se ao menos tivesse alguém para conversar durante esse tempo de caminhada, evitaria tanta abstração. Mas essa é uma cidade de solitários.