
São muitos os que passam dia a dia pela Rua das Flores, perto do Bosque Tiradentes. São homens que vão trabalhar mulheres que vão passear namorados que vão se amar e alguns velhos que vão chorar. No caminho para o Bosque, dentre várias casas e comércios que compões a rua, havia uma que pouco encantava os olhos. Quem poderia imaginar que naquela humilde casa já desgastada pelo tempo morava um artista? Esse artista não trabalhava com tintas, nem argila, nem sons, nem alegria, tampouco estase.
Vitor não era famoso e se tinha esperança de ser, era apenas depois da morte, como muitos de seus autores preferidos. Homem só, saía apenas para ir ao escritório, onde passava boa parte de seu dia preenchendo sua mente com aquela realidade tão leve, tão alienante, que era de alguma forma o que não o deixava enlouquecer com a indiferença diária com a qual a vida o tratava, com a qual ele mesmo se tratava. Mas era no começo da noite ao chegar a sua casa fria, que ele se transformava em um ser maior. Ia para o quarto, sentava e começava.
Tão logo se sentava, ao seu lado surgiam várias almas, uma a uma, desabrochando dos móveis. O grande mestre Virgílio, a infiel Amélia, seus três filhos, o maestro de Florença. Vitor se perdia dentro de seu pequeno quarto, agarrava-se a sua mesa para não se perder naquele imenso vórtice de personagens que gritavam seu nome: “Vitor, Viiitor...”. As almas voavam, sumiam, davam lugar a outras que vinham surgindo, retornavam. O próprio silêncio parecia fugir daquela casa por onde tantas vozes, risos, lamentações e orações ecoavam. Toda noite era um pandemônio, Vitor entorpecia-se com seu narcisismo e de seus companheiros do além. Pouco a pouco, as almas cansavam de atormentá-lo e dele se escondiam de volta nos móveis, nas paredes, nele próprio. O pobre homem estava acabado, mais uma obra para sua galeria particular, mas a que preço, pensava ele. Essa vida sem graça, sem despeito. Como poderia viver um homem a vida todo só? Como poderia encontrar sentido para se levantar dia após dia sabendo que não poderia jamais sair daquele sentimento de angústia que o regia.
O sono veio como um anjo a tirar-lhe daquela agonia. Deitou-se, dormiu. Sonhou com sua morte, os pulsos vermelhos chorando e ele, inerte, sentado em algum banco de praça. E quando acordasse certamente tentaria se convencer de que ele era um forte por suportar tudo aquilo sozinho, um touro. Mas... não seria o contrário? “o meu revólver, é o que me basta... um tiro... sim. Medo? Medo de quê? Não posso crer que eu, nesse ponto...”. A solidão não o incomodava, a alegria, a amada, o tempo, a saudade; nada mais o abalava. E ninguém que passasse à noite pela rua das Flores, perto daquele bosque dantesco onde namoravam os casais, poderia imaginar que lá mora, acima de tudo, um triste.

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