I
Ainda posso sentir o gosto daquele cigarro acesso queimando entre meus dedos. Sentado na base de um obelisco na Praça Tiradentes, eu não podia acreditar no que acabara de acontecer comigo. Eu amava Rogéria, e sei que ela também me amava, mas ela teve o topete de abandonar, e de fazer aquele “showzinho” na frente da Igreja, na frente dos olhos daqueles dois anjinhos que, lá de cima, nos olhavam inertes, estavam tão perplexos quanto eu. E tudo por causa de uma menininha de dezessete, uma brincadeira. Eu teria dado tudo por Rogéria, mas depois daquela tapa, que o frio de hoje parece fazer doer ainda mais, tenho vontade é de lhe dar um tiro no peito. Não, no peito não. Seria melhor naquela cara deslavada dela. Hum... Quero ver o quê vai fazer agora... Não tem para onde ir. Com certeza a esta hora deve estar lá em casa arrumando suas roupas, a maioria eu que comprei, com o dinheiro do meu suor. Deixava de satisfazer minhas vontades para ela estar bonita, e como ficava bonita. Nos fins de semana nos saíamos para um sambinha, tinha orgulho de caminhar ao lado dela, nenhuma se comparava a ela, Rogéria tem uma beleza singular que enfeitiça meus olhos e embriaga minha alma de satisfação. Eu também não valho o feijão que como, dando mole bem aqui no meio da praça. Mas quem poderia imaginar minha nega em plena terça-feira aqui, na missa do centro. Talvez tenha vindo pedir perdão pelos meus pecados, pois ela sempre me pareceu uma santa. Sempre bebi, e ela sabia disso quando me conheceu, mas nunca ergui minha mão contra ela e disso ela não pode reclamar. No ônibus, de volta pra casa, ela deve ter chorado, ainda deve estar chorando. Acho que ela não vai levar todas as roupas, pelo menos não as minhas, é orgulhosa, mas, felizmente, sabe perdoar.
Talvez se sair daqui agora ainda possa encontrá-la já mais calma, o tempo é grande consolador.
Mas talvez queira brigar, me chamará de filho da puta, com aquela voz quase melíflua.Aquela voz levemente que me chamava para a cama, que dizia desembaraçadamente que não precisava de mim para ser feliz.
É triste ver aqui, na praça, os casais parados em algum poste ou sentados em um banco imundo, se beijando. Se beijam como se procurassem algo dentro um do outro, algo que nunca se acha, algo que nunca se sente. Procuramos desesperadamente. Observando todos esses casais, às vezes imagino que ela me deixou por esse meu modo frio de ser. Não gostava de andar de mãos dadas, de dizer constantemente depois de nossos beijos mecânicos que a amava, que não saberia viver sem ela. Mas para mim isso tudo não passa de uma grande besteirada sem valor algum. Se não gostasse mais dela já a teria abandonado a tempos, como fiz com várias outras, nunca me arrependia de deixá-las. Se alguma chorou por mim, chorou de burra, pois não se chora o leite derramado. Foi assim que o meu velho me ensinou desde pequeno. Grande homem era meu pai, lembro até hoje o dia em que, na cozinha, escorreguei e quebrei meu braço. Do chão me levantou pelo próprio braço fraturado. Gritava, gritava, e só não gritava mais porque o choro tomava meu fôlego. E ele me jogando no banco de trás do seu fusca gritava também: “Cala a boca, porra. Homem não chora, homem não chora”. Eu só ouvia mas pouco podia fazer, com o fusca virando de um lado para o outro, ou me consolava contorcendo-me de dor. Talvez Rogéria também esteja se contorcendo de dor, encima de nossa cama. Chego até a invejá-la por um segundo, elas têm lágrimas para chorar.
II
Aquele maldito, inconseqüente, não acredito que fez aquilo comigo, o quê que aquelazinha tem que fez ele me trair, ele que chegava até ser carinhoso às vezes, e no meio da praça ainda por cima... Aquela vagabunda. Tenho que correr, lá vem o ônibus. Passo a catraca aos soluços. Entro, todos parassem me olhar, quê importa? Seguro-me e parto. Vejo minha imagem dispersa na janela, acho que aquela puta borrou meu batom quando me deu aquela tapa, maldita, devia ter revidado, ou dado a outra face. Que fique com ela aquele porco, eu não mereço ser tratada assim, não depois de tudo que fiz para ele.
Depois de ter lhe dado os meus melhores beijos, os abraços, as juras de amor. Por ele eu reneguei minha liberdade, cuidando da casa dele, só divertia-me nos finais de semana, mas por ele valia a pena. Há quanto tempo esse vagabundo deve me enganar? Com quantas? E pensar que se eu não tivesse aceitado o convite da Amélia para o batizado de seu sobrinho a estúpida estaria agora se perfumando para o infeliz. Penso que um dia irei acabar como essas velhas senhoras, que parecem não ter família, e andam quase caindo pelo ônibus, com suas curvas destemidas, sem que nenhum estudante dessas grandes escolas ceda seu lugar, as mochilas pesam mais que a idade.
Não consigo parar de chorar. Desço e entro no mar de gente no qual eu me afogo, gente também infeliz, maltratada, escarrada, desorientada. Sinto me afogar naquele mar de desgraça que se acentua com a minha, mas minha dor perto das desses coitados largados nos cantos da cidade não parece ser digna de lágrimas, mas choro.
Tão difícil achar um rapaz decente nessa vida que saibam amar, prefiro os indecentes, pelo menos eles me fazem feliz. Mas sei que esses são efêmeros, se achasse apenas um que não fosse, que não tentasse me fazer rir sem parar, que não se preocupasse em me fazer sentir infeliz ao seu lado, que fosse verdadeiro.
Será que já estou ficando velha?Fria? Será que me largou por eu não ser daq... Mas sempre o tratei bem com carinho, ele fingia não gostar das minhas carícias, mas eu sei que era puro orgulho masculino, talvez não fosse. Talvez se cansou de mim como quem se cansa dos bares, da descontração metricamente estipulada. Talvez o cinza da cidade, a revoada homérica dos pombos, os ilustres obeliscos, o céu anêmico, a sempre querida rosa... Uma loucura de momento dele, sem dúvida. Sei que ainda deve gostar de mim, os olhos negros dele deslizavam sobre minha face, sobre meu corpo... Sei que vai me procurar de volta. Agora é melhor eu ir para a casa da Cidinha, afinal, o quê pensaria de mim se voltasse para casa dele, que sou uma despudorada, uma qualquer e não vou me prestar a esse papel. Bom para ele aprender verá que não encontrará outra igual a mim, que sabe o que ele gosta. Agora já parei de chorar, não cabe a uma moça direita andar por aí assim, descomposta.
III
-João do céu, você viu como são os casai de hoje? Viu aquele pobre no meio daquelas duas, tentando evitar socos? Como pode...
- Pois é. O menino não sabia nem o quê fazer no meio da gritaria daquelas duas, e quando a loirinha deu a tapa! Que vexame.
- Lembra do tempo em que os casais aqui eram raros? Eles davam voltas e voltas pela praça de mãos dadas, mas não eram as “mãos-dadas-de-hoje”, as moças riam enquanto balançavam os braços duros de seus namorados, os braços colados que pendiam seguindo uma cadência... Lembra da cadência? E, diga-se de passagem, que elas gostavam de torturar os rapazes. Sempre que alguns mais acanhados resolviam tentar pegar-lhes a mão elas, um segundo antes que eles pudessem fazê-lo, levantava-as fingindo arrumar o cabelo ou apontando algo sem importância, hahaha.
- Mas veja, José, da mesma forma em que eram mais raros os amores, menos eram os desamores. Quantos meninos não vimos se acabarem neste mesmo petit-pavé onde não há pudor? Quantos sangue e massa encefálica não respingaram na fachada da nossa igreja, depois de gritarem que a vida era difícil demais, e com o mesmo dedo que as meninas usavam para torturá-los, os pobres atiravam contra si mesmos.
- A verdade é que elas é que matavam eles, elas que tingiam a calçada de vermelho. Mas no fundo eles gostavam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário