26 de fev. de 2008

Pétalas de fogo

Todos os amigos e familiares que os viam juntos daquela forma diziam: “que casal mais lindo” ou “vocês vão ser muito felizes, se Deus quiser”. E assim foi, descartando-se um ou outro desentendimento, coisa mais do que normal. Passaram-se dois anos, nasceu Rogéria, um bebê que mais parecia um anjo, como os tios orgulhosos diziam.

Então estava feita a família dos sonhos: o marido, Oswaldo; a esposa dedicada, Ema e o bebê abençoado, além do carrinho recém adquirido e uma casa cercada por grandes e belas árvores. Aliás, um jardim de dar inveja a qualquer um da vizinhança, lindas flores, lindas e muitas. O tempo passou como o vento no rosto, e Rogéria, já com doze anos, havia adquirido o perigoso hábito, para desespero de sua mãe, de brincar com fogo. Já aos oito não perdia a oportunidade de, quando a mãe se distraía com a novela, ir a cozinha e brincar com o isqueiro ou com os fósforos, o quê fosse. Fumaria só pela companhia da brasa se a idade permitisse. A brincadeira só acabava quando Ema se levantava instintivamente do sofá ao ouvir o choro estridente da filha. Ela aparecia chorando, segurando o braço esquerdo ferido pelo fogo, sempre o esquerdo, que já estava com várias marcas de queimadura.

Não adiantava repreender, nem bater, tampouco esconder o “brinquedo” da menina, cedo ou tarde o silêncio da casa era violado pelo choro da pequena.
Passara-se mais um ano e Ema se viu grávida novamente, a família toda do casal, como antes, se mobilizou. Lucas acaba de abrir os olhos para o mundo e Oswaldo agora se sentia completamente realizado com um filho, filho homem. Todos os olhos se viraram para o mais novo integrante da família, que seria advogado como o pai. As mulheres se deliciavam vendo e tocando o enxoval, se escandalizavam de alegria. Rosana olhava tudo estática, em um canto, quase esquecida.
- Vem ver o seu irmãozinho, Rosana - dizia o pai orgulhoso - ele não é lindo? Heim?
- É muito pequeno... não é? Bonitinho.

Mais alguns dias e várias pessoas ainda estavam na casa para ajudar nos cuidados de Lucas, a mãe estava um pouco debilitada ainda, não foi um parto fácil, seis horas. E foi quando todos estavam reunidos na sala, gargalhando alto, que Rogéria chegou e se sentou rapidamente.
-Que cheiro do queimado é esse? Perguntou alguém.
-Você andou queimando alguma coisa, dona Rosana?

Olhando fixamente para o chão, balançou a cabeça dizendo que não. Oswaldo levantou-se seguindo o cheiro e quando entrou na cozinha pode ver pela janela uma luz lá fora. Abriu a porta que dava para o jardim, desesperou-se: “Socorro, alguém... o quintal tá pegando fogo. Todos saíram e viram uma pequena árvore pegando fogo, bem como alguns arbustos envolta dela. Foi um deus nos acuda. Os homens tiravam as camisetas e batiam no chão de onde brotavam as chamas, inútil. O fogo só foi controlado quando Oswaldo pegou sua mangueira de jardim e pouco a pouco, apagou o incêndio com a paciência de um suicida.

A menina apanhou como nunca antes, na frente de todos. Mas o pior foi ouvir as repreensões de todos os parentes que ainda estavam na casa, enfrentar o isolamento causado pela vergonha e pelo remorso. Chorou muito no afã de ser acalentada, não foi.
Agora vivia mais calada do que nunca. Mas a memória não é auxiliada pelo tempo, a irritação dos pais foi passando, junto com o susto e principalmente com os parentes que nesse momento já haviam retornado para suas casas e deixado Ema, enfim, ser mãe de Lucas.

Restabelecida a normalidade da casa, Oswaldo resolveu levar Ema para um almoço romântico, no restaurante Arronax, e talvez dançar uma ou duas músicas só para satisfazê-la, depois, voltar para casa e dormir, trabalharia cedo amanhã, afinal, agora tinha uma família grande para sustentar nos seus velhos ombros de advogado.
No dia marcado Ema arrumou-se com muita sutileza, paciência e talento, como quem tivesse medo de perder a beleza, a juventude. Mas estava maravilhosa. Ela, ter tido um filho a poucas semanas? Ninguém diria, mas ela temia a idade, considerava a beleza a maior qualidade feminina, sem ela não se vive. Saíram. Euforia dela, satisfação dele.

No meio do almoço, Oswaldo fez uma cena das mais românticas. Com o vinho dos copos refletindo as mãos dadas do casal, jurou nunca ter amado alguém tanto, impossível viver sem ela, mil cerimônias. Ela chorava com medo de borrar a maquiagem e segurava os soluços, o que os fazia sair ainda mais violentos. Ela, Balbuciando com saliva entre os lábios, jurou que ele seria o único até a hora da morte, levemente embriagada.

Dançaram, não uma, nem duas, mas quatro. O casal mais lindo do mundo. Demoraram muito em sua alegria, pegaram trânsito. Começaram a se preocupar, o bebê devia estar acordado, chorando, e Rogéria não sabe tratar dele. Não encontrara nenhum sinal verde na vinda, mas sorriam. Enfim, chegaram.

Rogéria está assistindo TV, Ema entra no quarto de Lucas, mas, não está lá. Sente o peito apertar e questiona a menina onde o pequeno está, a resposta é substituída pelos gritos de Oswaldo que saem da cozinha. Ela corre para lá, vê a porta que dá para o jardim aberta. O marido caído em meio à grama. Imobilizou-se, estática, diante da cena do braço de seu bebê carbonizado, saindo da terra marrom-vermelha, onde já nasceram as primeiras rosas depois do incêndio. Em meio àquelas cores cálidas da natureza, a rosa negra parecia desfazer-se e juntar-se ao vento em que respirava.

21 de fev. de 2008

Casa de muitos




São muitos os que passam dia a dia pela Rua das Flores, perto do Bosque Tiradentes. São homens que vão trabalhar mulheres que vão passear namorados que vão se amar e alguns velhos que vão chorar. No caminho para o Bosque, dentre várias casas e comércios que compões a rua, havia uma que pouco encantava os olhos. Quem poderia imaginar que naquela humilde casa já desgastada pelo tempo morava um artista? Esse artista não trabalhava com tintas, nem argila, nem sons, nem alegria, tampouco estase.


Vitor não era famoso e se tinha esperança de ser, era apenas depois da morte, como muitos de seus autores preferidos. Homem só, saía apenas para ir ao escritório, onde passava boa parte de seu dia preenchendo sua mente com aquela realidade tão leve, tão alienante, que era de alguma forma o que não o deixava enlouquecer com a indiferença diária com a qual a vida o tratava, com a qual ele mesmo se tratava. Mas era no começo da noite ao chegar a sua casa fria, que ele se transformava em um ser maior. Ia para o quarto, sentava e começava.
Tão logo se sentava, ao seu lado surgiam várias almas, uma a uma, desabrochando dos móveis. O grande mestre Virgílio, a infiel Amélia, seus três filhos, o maestro de Florença. Vitor se perdia dentro de seu pequeno quarto, agarrava-se a sua mesa para não se perder naquele imenso vórtice de personagens que gritavam seu nome: “Vitor, Viiitor...”. As almas voavam, sumiam, davam lugar a outras que vinham surgindo, retornavam. O próprio silêncio parecia fugir daquela casa por onde tantas vozes, risos, lamentações e orações ecoavam. Toda noite era um pandemônio, Vitor entorpecia-se com seu narcisismo e de seus companheiros do além. Pouco a pouco, as almas cansavam de atormentá-lo e dele se escondiam de volta nos móveis, nas paredes, nele próprio. O pobre homem estava acabado, mais uma obra para sua galeria particular, mas a que preço, pensava ele. Essa vida sem graça, sem despeito. Como poderia viver um homem a vida todo só? Como poderia encontrar sentido para se levantar dia após dia sabendo que não poderia jamais sair daquele sentimento de angústia que o regia.


O sono veio como um anjo a tirar-lhe daquela agonia. Deitou-se, dormiu. Sonhou com sua morte, os pulsos vermelhos chorando e ele, inerte, sentado em algum banco de praça. E quando acordasse certamente tentaria se convencer de que ele era um forte por suportar tudo aquilo sozinho, um touro. Mas... não seria o contrário? “o meu revólver, é o que me basta... um tiro... sim. Medo? Medo de quê? Não posso crer que eu, nesse ponto...”. A solidão não o incomodava, a alegria, a amada, o tempo, a saudade; nada mais o abalava. E ninguém que passasse à noite pela rua das Flores, perto daquele bosque dantesco onde namoravam os casais, poderia imaginar que lá mora, acima de tudo, um triste.

15 de fev. de 2008

Beleza íntima

Toc-toc-toc na porta do quarto de Rita.
- Você já está pronta minha filha?
- Já vai! Espera um pouco.

Mariana desceu as escadas e sentou a mesa com seu marido que lia o jornal ao lado de uma xícara vazia.
- Ela disse que já está descendo...

Mal terminada a frase, o som dos passos na escada denunciam Rita, os que a esperavam vão até a porta da frente esperá-la. De lá ficam surpresos com a filha.
- Nossa, filha! Quanta maquiagem, quase não te reconheço, disse o pai.
- Para com isso Otávio! Você está linda filha, agora vamos logo antes que nos atrasemos.

Era assim todos os sábados, às vezes iam ao teatro, outras ao cinema, enfim. Os pequenos quatorze anos de Rita não escondiam sua beleza física. Era alta e magra, cabelos negros quase longos e olhos profundos auxiliados pela maquiagem. Sua beleza infantil somado a sua sensualidade adulta atraíam os mais audaciosos olhares nas ruas.

Desde que Mariana lhe ensinara a usar seus batons, sombras e outras coisas, a pequena foi tomando um gosto ímpar pela atividade. Caprichos da idade, afinal já era quase moça feita como diziam os tios que freqüentemente os visitavam.
Ha! Se ela soubesse na sua terna infância que não importa o quanto se pinte o ovo um dia ele, fatalmente, se quebrará. Grita e grita a beleza que se vai para conseguir um não se sabe que de um mistério, assim, turvo e doido. É fato consumado. Veio o pedido: “posso usar um pouco para ir à escola, todas usam”, como negar o que não se nega. O espelho do quarto não cansava de refletir a mesma imagem todos os dias de manhã. Os olhos frios ganhando cor, o cabelo forma, o batom audaz que beija os lábios virgens. No jogo de Narciso não se encontra culpados nem vítimas, só atores atordoados de ópio. O princípio é sempre o isolamento, onipotente e absoluto. O telefone tocou: “alô, é a mãe de Rita... bem, sua filha, não de hoje... fora da aula... rapazes, tu sabes?” Atordoada perdeu-se a razão.

Castigo é não viver, o pássaro que não voa. “De casa você não sai”. Choro e mais choro enchiam a casa, Otávio nem acreditava, estaria grávida?
Totoc-toc na porta.
- Já está dormindo, filha?
- Não...

Entra, e surpreende-se ao ver Rita em frente ao espelho.
- O quê você está fazendo! Já disse que daqui você não sai. Pare com isso!
- Eu não vou sair, você não entende? Tenho que estar bonita, estou me preparando para quando ele chegar, o sonho.
- Você está louca! Vá limpar essa cara nojenta antes que eu arrebente ela, menina estúpida!

Foi demorou mais de meia hora, lavou-se com álcool e lágrimas. Seu rosto se desfazendo na frente do espelho não pede suportar. Depois do banheiro passou na lavanderia e bebeu um líquido rosa sem saber que utilidade tinha, foi como engolir uma rosa cheirosa e com espinhos. Trancou-se no quarto sem falar com ninguém, e de lá nunca mais saiu bela. Uma rosa com espinhos.

14 de fev. de 2008

Curitiba dos desvalidos

I

Ainda posso sentir o gosto daquele cigarro acesso queimando entre meus dedos. Sentado na base de um obelisco na Praça Tiradentes, eu não podia acreditar no que acabara de acontecer comigo. Eu amava Rogéria, e sei que ela também me amava, mas ela teve o topete de abandonar, e de fazer aquele “showzinho” na frente da Igreja, na frente dos olhos daqueles dois anjinhos que, lá de cima, nos olhavam inertes, estavam tão perplexos quanto eu. E tudo por causa de uma menininha de dezessete, uma brincadeira. Eu teria dado tudo por Rogéria, mas depois daquela tapa, que o frio de hoje parece fazer doer ainda mais, tenho vontade é de lhe dar um tiro no peito. Não, no peito não. Seria melhor naquela cara deslavada dela. Hum... Quero ver o quê vai fazer agora... Não tem para onde ir. Com certeza a esta hora deve estar lá em casa arrumando suas roupas, a maioria eu que comprei, com o dinheiro do meu suor. Deixava de satisfazer minhas vontades para ela estar bonita, e como ficava bonita. Nos fins de semana nos saíamos para um sambinha, tinha orgulho de caminhar ao lado dela, nenhuma se comparava a ela, Rogéria tem uma beleza singular que enfeitiça meus olhos e embriaga minha alma de satisfação. Eu também não valho o feijão que como, dando mole bem aqui no meio da praça. Mas quem poderia imaginar minha nega em plena terça-feira aqui, na missa do centro. Talvez tenha vindo pedir perdão pelos meus pecados, pois ela sempre me pareceu uma santa. Sempre bebi, e ela sabia disso quando me conheceu, mas nunca ergui minha mão contra ela e disso ela não pode reclamar. No ônibus, de volta pra casa, ela deve ter chorado, ainda deve estar chorando. Acho que ela não vai levar todas as roupas, pelo menos não as minhas, é orgulhosa, mas, felizmente, sabe perdoar.

Talvez se sair daqui agora ainda possa encontrá-la já mais calma, o tempo é grande consolador.
Mas talvez queira brigar, me chamará de filho da puta, com aquela voz quase melíflua.Aquela voz levemente que me chamava para a cama, que dizia desembaraçadamente que não precisava de mim para ser feliz.

É triste ver aqui, na praça, os casais parados em algum poste ou sentados em um banco imundo, se beijando. Se beijam como se procurassem algo dentro um do outro, algo que nunca se acha, algo que nunca se sente. Procuramos desesperadamente. Observando todos esses casais, às vezes imagino que ela me deixou por esse meu modo frio de ser. Não gostava de andar de mãos dadas, de dizer constantemente depois de nossos beijos mecânicos que a amava, que não saberia viver sem ela. Mas para mim isso tudo não passa de uma grande besteirada sem valor algum. Se não gostasse mais dela já a teria abandonado a tempos, como fiz com várias outras, nunca me arrependia de deixá-las. Se alguma chorou por mim, chorou de burra, pois não se chora o leite derramado. Foi assim que o meu velho me ensinou desde pequeno. Grande homem era meu pai, lembro até hoje o dia em que, na cozinha, escorreguei e quebrei meu braço. Do chão me levantou pelo próprio braço fraturado. Gritava, gritava, e só não gritava mais porque o choro tomava meu fôlego. E ele me jogando no banco de trás do seu fusca gritava também: “Cala a boca, porra. Homem não chora, homem não chora”. Eu só ouvia mas pouco podia fazer, com o fusca virando de um lado para o outro, ou me consolava contorcendo-me de dor. Talvez Rogéria também esteja se contorcendo de dor, encima de nossa cama. Chego até a invejá-la por um segundo, elas têm lágrimas para chorar.


II

Aquele maldito, inconseqüente, não acredito que fez aquilo comigo, o quê que aquelazinha tem que fez ele me trair, ele que chegava até ser carinhoso às vezes, e no meio da praça ainda por cima... Aquela vagabunda. Tenho que correr, lá vem o ônibus. Passo a catraca aos soluços. Entro, todos parassem me olhar, quê importa? Seguro-me e parto. Vejo minha imagem dispersa na janela, acho que aquela puta borrou meu batom quando me deu aquela tapa, maldita, devia ter revidado, ou dado a outra face. Que fique com ela aquele porco, eu não mereço ser tratada assim, não depois de tudo que fiz para ele.

Depois de ter lhe dado os meus melhores beijos, os abraços, as juras de amor. Por ele eu reneguei minha liberdade, cuidando da casa dele, só divertia-me nos finais de semana, mas por ele valia a pena. Há quanto tempo esse vagabundo deve me enganar? Com quantas? E pensar que se eu não tivesse aceitado o convite da Amélia para o batizado de seu sobrinho a estúpida estaria agora se perfumando para o infeliz. Penso que um dia irei acabar como essas velhas senhoras, que parecem não ter família, e andam quase caindo pelo ônibus, com suas curvas destemidas, sem que nenhum estudante dessas grandes escolas ceda seu lugar, as mochilas pesam mais que a idade.

Não consigo parar de chorar. Desço e entro no mar de gente no qual eu me afogo, gente também infeliz, maltratada, escarrada, desorientada. Sinto me afogar naquele mar de desgraça que se acentua com a minha, mas minha dor perto das desses coitados largados nos cantos da cidade não parece ser digna de lágrimas, mas choro.

Tão difícil achar um rapaz decente nessa vida que saibam amar, prefiro os indecentes, pelo menos eles me fazem feliz. Mas sei que esses são efêmeros, se achasse apenas um que não fosse, que não tentasse me fazer rir sem parar, que não se preocupasse em me fazer sentir infeliz ao seu lado, que fosse verdadeiro.
Será que já estou ficando velha?Fria? Será que me largou por eu não ser daq... Mas sempre o tratei bem com carinho, ele fingia não gostar das minhas carícias, mas eu sei que era puro orgulho masculino, talvez não fosse. Talvez se cansou de mim como quem se cansa dos bares, da descontração metricamente estipulada. Talvez o cinza da cidade, a revoada homérica dos pombos, os ilustres obeliscos, o céu anêmico, a sempre querida rosa... Uma loucura de momento dele, sem dúvida. Sei que ainda deve gostar de mim, os olhos negros dele deslizavam sobre minha face, sobre meu corpo... Sei que vai me procurar de volta. Agora é melhor eu ir para a casa da Cidinha, afinal, o quê pensaria de mim se voltasse para casa dele, que sou uma despudorada, uma qualquer e não vou me prestar a esse papel. Bom para ele aprender verá que não encontrará outra igual a mim, que sabe o que ele gosta. Agora já parei de chorar, não cabe a uma moça direita andar por aí assim, descomposta.


III

-João do céu, você viu como são os casai de hoje? Viu aquele pobre no meio daquelas duas, tentando evitar socos? Como pode...
- Pois é. O menino não sabia nem o quê fazer no meio da gritaria daquelas duas, e quando a loirinha deu a tapa! Que vexame.
- Lembra do tempo em que os casais aqui eram raros? Eles davam voltas e voltas pela praça de mãos dadas, mas não eram as “mãos-dadas-de-hoje”, as moças riam enquanto balançavam os braços duros de seus namorados, os braços colados que pendiam seguindo uma cadência... Lembra da cadência? E, diga-se de passagem, que elas gostavam de torturar os rapazes. Sempre que alguns mais acanhados resolviam tentar pegar-lhes a mão elas, um segundo antes que eles pudessem fazê-lo, levantava-as fingindo arrumar o cabelo ou apontando algo sem importância, hahaha.

- Mas veja, José, da mesma forma em que eram mais raros os amores, menos eram os desamores. Quantos meninos não vimos se acabarem neste mesmo petit-pavé onde não há pudor? Quantos sangue e massa encefálica não respingaram na fachada da nossa igreja, depois de gritarem que a vida era difícil demais, e com o mesmo dedo que as meninas usavam para torturá-los, os pobres atiravam contra si mesmos.
- A verdade é que elas é que matavam eles, elas que tingiam a calçada de vermelho. Mas no fundo eles gostavam.

12 de fev. de 2008

Dragão Chinês


Ao ver correndo um vulto no final da rua, lá pelas uma da madruga, Antônio ficou paralisado. Estático, com o cigarro na boca, tentava identificar a face que se aproximava rapidamente. Acalmou-se depois que viu que era uma mulher, cabelos longos.
- Roberta! O quê está fazendo aqui a esta hora?
Transtornada e ofegante, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e prosseguiu:
- É o dragão Antônio! Ele voltou. Ele vai me matar, juro que vai me matar. Socorra-me!
-Calma, calma. Que negócio é esse de dragão? Eu não estou entendendo nada, você está fugindo de quem?
- É dele que estou tentando fugir. Ele vem me perseguindo a muito tempo. Me faz fazer coisas que eu na quero, coisas que não sou capaz, ser uma pessoa que não sou. Ele veio me prender. Me prender e me matar!
-Você não está falando coisa com coisa. É um bicho que você viu no mato e estava fugindo? É isso?
- É. Isso mesmo.
- Mas, se acal-me, eu não estou vendo bicho nenhum. Ele já deve ter se ido embora.
E agora, com o fôlego, disse:
- Não, ele ficou lá em casa... Ele estava sentado na mesa da cozinha e disse que estava escrevendo um poema e ia ler para mim quando eu voltasse. Apavorada, deixei todas as panelas no fogo e fugi. Não deixe ele chegar perto de mim Antônio, por favor... Juro que morro só de vê-lo!
- Então foi um homem que invadiu a sua casa, um desconhecido? Eu chamo a polícia já!
- Não droga! Eu já te disse é um dragão! E eu o conheço bem, é verde e marrom, possui uma calda longa, e não tem chifres, sem nenhum chifre. Mas não se pode deixar enganar, entende?
- Você está louca, mulher? Bebeu?
- Não, não estou. Mas ele vai me deixar. Não me deixa sozinha Antônio, por favor fica comigo.
Antônio, que tinha a esta altura Roberta abraçada em seu braço, respirou fundo e tentou acalmá-la.
-Já disse pra ter calma. Eu te acompanharei até sua casa e você verá como não há nada está bem. Vamos.
- Não... ele está me esperando... vai me furar com aqueles olhos quando eu estiver dormindo, ao meu lado. Invejando meus cabelos... Não!
- Vamos logo, você está estérica!
Agarrou-a pelo braço e a puxou por dois passos.
-Não, me solta - e livrando-se dele num gesto brusco, gritou: - Ai! Deus acuda-me! Socorro, socorro! O dragão, o dragão.
As luzes da vizinhança começaram a se acender e, no meio do coral dos cachorros, ela correu até o fim da rua e sumiu no breu da noite. Nunca mais foi vista.