Todos os amigos e familiares que os viam juntos daquela forma diziam: “que casal mais lindo” ou “vocês vão ser muito felizes, se Deus quiser”. E assim foi, descartando-se um ou outro desentendimento, coisa mais do que normal. Passaram-se dois anos, nasceu Rogéria, um bebê que mais parecia um anjo, como os tios orgulhosos diziam.
Então estava feita a família dos sonhos: o marido, Oswaldo; a esposa dedicada, Ema e o bebê abençoado, além do carrinho recém adquirido e uma casa cercada por grandes e belas árvores. Aliás, um jardim de dar inveja a qualquer um da vizinhança, lindas flores, lindas e muitas. O tempo passou como o vento no rosto, e Rogéria, já com doze anos, havia adquirido o perigoso hábito, para desespero de sua mãe, de brincar com fogo. Já aos oito não perdia a oportunidade de, quando a mãe se distraía com a novela, ir a cozinha e brincar com o isqueiro ou com os fósforos, o quê fosse. Fumaria só pela companhia da brasa se a idade permitisse. A brincadeira só acabava quando Ema se levantava instintivamente do sofá ao ouvir o choro estridente da filha. Ela aparecia chorando, segurando o braço esquerdo ferido pelo fogo, sempre o esquerdo, que já estava com várias marcas de queimadura.
Não adiantava repreender, nem bater, tampouco esconder o “brinquedo” da menina, cedo ou tarde o silêncio da casa era violado pelo choro da pequena.
Passara-se mais um ano e Ema se viu grávida novamente, a família toda do casal, como antes, se mobilizou. Lucas acaba de abrir os olhos para o mundo e Oswaldo agora se sentia completamente realizado com um filho, filho homem. Todos os olhos se viraram para o mais novo integrante da família, que seria advogado como o pai. As mulheres se deliciavam vendo e tocando o enxoval, se escandalizavam de alegria. Rosana olhava tudo estática, em um canto, quase esquecida.
- Vem ver o seu irmãozinho, Rosana - dizia o pai orgulhoso - ele não é lindo? Heim?
- É muito pequeno... não é? Bonitinho.
Mais alguns dias e várias pessoas ainda estavam na casa para ajudar nos cuidados de Lucas, a mãe estava um pouco debilitada ainda, não foi um parto fácil, seis horas. E foi quando todos estavam reunidos na sala, gargalhando alto, que Rogéria chegou e se sentou rapidamente.
-Que cheiro do queimado é esse? Perguntou alguém.
-Você andou queimando alguma coisa, dona Rosana?
Olhando fixamente para o chão, balançou a cabeça dizendo que não. Oswaldo levantou-se seguindo o cheiro e quando entrou na cozinha pode ver pela janela uma luz lá fora. Abriu a porta que dava para o jardim, desesperou-se: “Socorro, alguém... o quintal tá pegando fogo. Todos saíram e viram uma pequena árvore pegando fogo, bem como alguns arbustos envolta dela. Foi um deus nos acuda. Os homens tiravam as camisetas e batiam no chão de onde brotavam as chamas, inútil. O fogo só foi controlado quando Oswaldo pegou sua mangueira de jardim e pouco a pouco, apagou o incêndio com a paciência de um suicida.
A menina apanhou como nunca antes, na frente de todos. Mas o pior foi ouvir as repreensões de todos os parentes que ainda estavam na casa, enfrentar o isolamento causado pela vergonha e pelo remorso. Chorou muito no afã de ser acalentada, não foi.
Agora vivia mais calada do que nunca. Mas a memória não é auxiliada pelo tempo, a irritação dos pais foi passando, junto com o susto e principalmente com os parentes que nesse momento já haviam retornado para suas casas e deixado Ema, enfim, ser mãe de Lucas.
Restabelecida a normalidade da casa, Oswaldo resolveu levar Ema para um almoço romântico, no restaurante Arronax, e talvez dançar uma ou duas músicas só para satisfazê-la, depois, voltar para casa e dormir, trabalharia cedo amanhã, afinal, agora tinha uma família grande para sustentar nos seus velhos ombros de advogado.
No dia marcado Ema arrumou-se com muita sutileza, paciência e talento, como quem tivesse medo de perder a beleza, a juventude. Mas estava maravilhosa. Ela, ter tido um filho a poucas semanas? Ninguém diria, mas ela temia a idade, considerava a beleza a maior qualidade feminina, sem ela não se vive. Saíram. Euforia dela, satisfação dele.
No meio do almoço, Oswaldo fez uma cena das mais românticas. Com o vinho dos copos refletindo as mãos dadas do casal, jurou nunca ter amado alguém tanto, impossível viver sem ela, mil cerimônias. Ela chorava com medo de borrar a maquiagem e segurava os soluços, o que os fazia sair ainda mais violentos. Ela, Balbuciando com saliva entre os lábios, jurou que ele seria o único até a hora da morte, levemente embriagada.
Dançaram, não uma, nem duas, mas quatro. O casal mais lindo do mundo. Demoraram muito em sua alegria, pegaram trânsito. Começaram a se preocupar, o bebê devia estar acordado, chorando, e Rogéria não sabe tratar dele. Não encontrara nenhum sinal verde na vinda, mas sorriam. Enfim, chegaram.
Rogéria está assistindo TV, Ema entra no quarto de Lucas, mas, não está lá. Sente o peito apertar e questiona a menina onde o pequeno está, a resposta é substituída pelos gritos de Oswaldo que saem da cozinha. Ela corre para lá, vê a porta que dá para o jardim aberta. O marido caído em meio à grama. Imobilizou-se, estática, diante da cena do braço de seu bebê carbonizado, saindo da terra marrom-vermelha, onde já nasceram as primeiras rosas depois do incêndio. Em meio àquelas cores cálidas da natureza, a rosa negra parecia desfazer-se e juntar-se ao vento em que respirava.


